Um ano para celebrar
Cem anos depois de iniciar suas atividades no Rio de Janeiro, a Academia Brasileira de Ciências comemora a história que construiu e planeja o futuro de suas ações. O ano do centenário, que se estendeu de maio de 2016 a maio de 2017, não apenas esteve repleto de celebrações do passado, mas também marcou o início de um grande projeto da ABC para a pesquisa científica brasileira.

A Reunião Magna
Tradicionalmente o evento anual mais marcante promovido pela Academia, a Reunião Magna de 2016 ganhou novo formato, com conferências e debates dedicados a temas atuais e instigantes abordados de forma transdisciplinar, sob o lema “Pavimentando um futuro melhor”. O encontro, realizado no recém-inaugurado Museu do Amanhã, na zona portuária do Rio, foi aberto, como já é de praxe, não apenas a Acadêmicos e outros cientistas, mas também ao público geral, interessado em questões como saúde global, segurança alimentar sustentável, energia, novas tecnologias e educação.
Uma das sessões que atraíram maior interesse do público tratou do vírus zika, questão emergencial de saúde pública no Brasil. Os especialistas Pedro Vasconcelos, do Instituto Evandro Chagas, e Rodrigo Brindeiro, do Departamento de Genética e Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, falaram sobre a epidemiologia da doença e perspectivas de tratamento e prevenção, destacando iniciativas científicas brasileiras para o melhor conhecimento e combate ao vírus.


Entre os cientistas estrangeiros convidados para a Reunião estiveram o japonês Takaaki Kajita, ganhador do prêmio Nobel de Física em 2015 pela comprovação de que os neutrinos possuem massa; o norte-americano John Hopcroft, ganhador do prêmio Turing e um dos pioneiros da ciência da computação; e a bióloga Marcia McNutt, então editora-chefe da revista Science e primeira presidente mulher da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, entre muitos outros.
O evento, coordenado pelos Acadêmicos Débora Foguel e Carlos Aragão, incluiu, além da programação científica, a posse do novo presidente eleito da instituição, Luiz Davidovich. Na cerimônia estiveram presentes a então ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Emilia Curi, que destacou a importância de instituições como a ABC para o enfrentamento da crise de financiamento da ciência pela qual o Brasil está passando; o diretor-executivo do grupo IDG, gestor do Museu do Amanhã, Ricardo Piquet; e o secretário estadual de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, Gustavo Tutuca. O evento incluiu, ainda, o lançamento de um selo comemorativo do centenário da ABC, com a presença do diretor regional dos Correios no Rio de Janeiro, Éverton Machado.
A programação da Reunião Magna de 2016 abarcou também a cerimônia de boas-vindas aos novos membros titulares e correspondentes e a outorga do prêmio Almirante Álvaro Alberto ao Acadêmico Paulo Eduardo Artaxo Netto, professor do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo.
“Podemos dizer que a ABC se tornou um importante centro de pensamento sobre o país, mobilizando os melhores pesquisadores para apresentar propostas sobre temas de interesse nacional. Uma instituição que se nutre de sua experiência centenária para construir uma visão de futuro, contribuindo para um projeto de Brasil sustentável nos âmbitos econômico, social e ambiental.”
luiz davidovich, em discurso de posse na presidência da abc
Divulgando a história da ciência no Brasil
Um aniversário de 100 anos é, sempre, um convite a olhar para a história. Para guardar memória de suas atividades e divulgar ao grande público sua trajetória, a Academia Brasileira de Ciências organizou uma pesquisa histórica que investigou o passado da ABC e da pesquisa científica brasileira em diferentes fontes de informação, incluindo, por exemplo, as atas e os anais da Academia, o arquivo da Biblioteca Pacheco Leão e entrevistas com Acadêmicos e ex-presidentes da instituição.
Entre as fontes externas consultadas estiveram o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas, o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Biblioteca Nacional, o Museu de Astronomia e Ciências Afins, o Instituto Moreira Salles, a Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz, os projetos Memória da Universidade de São Paulo e da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o arquivo da Academia Brasileira de Letras, além dos acervos dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo.
As informações levantadas originaram produtos de divulgação da história da ABC e da ciência no Brasil, incluindo este livro comemorativo. Outros produtos, lançados na Reunião Magna de 2016, foram as revistas Academia Brasileira de Ciências e os caminhos da pesquisa científica no Brasil – Uma história entrelaçada e 18 cientistas brasileiros e suas contribuições. A primeira resume a história da ABC em seus 100 primeiros anos, com fotos e citações marcantes de presidentes e associados. Já a segunda, voltada ao público jovem, traz biografias enxutas de quase duas dezenas de cientistas de especial relevância na história da ciência no Brasil.

Também durante o evento foi inaugurada a exposição 100 anos da Academia Brasileira de Ciências, uma linha do tempo interativa que marcava os acontecimentos mais importantes da história da ABC em textos, fotografias e vídeos, além de destacar o contexto nacional e internacional no qual eles se desenrolaram. A mostra incluiu, ainda, uma versão virtual da publicação 18 cientistas brasileiros e suas contribuições e uma área especialmente destinada ao público infantil, que apresentava pesquisadores brasileiros de forma interativa, incluindo jogos e passatempos, além de animações sobre essas personalidades. Essa parte da exposição foi lançada também em formato virtual no livro eletrônico 100 anos da ABC – convidados especiais, que ficou disponível gratuitamente para download em tablets e celulares.
Além do Museu do Amanhã, a exposição sobre o centenário da Academia foi montada em Brasília (DF), no Congresso Nacional; em Porto Seguro (BA), durante a 68ª Reunião Anual da SBPC; e em São Paulo (SP), como parte de um evento promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

“Nestes 100 anos de existência, [a Academia] tem mobilizado cientistas e pesquisadores em atividades em favor da Nação. Sem abdicar de sua necessária independência, a ABC estreitou, nos últimos anos, laços com o Ministério da Educação e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com ricas contribuições à formulação de políticas públicas — uma importante colaboração entre a comunidade científica nacional e instâncias de governo em prol de propostas e soluções para elevar a qualidade de vida da população brasileira.”
Dilma Roussef, presidente da República, em mensagem enviada à ABC na celebração do centenário

Outros eventos comemorativos
A celebração do centenário estendeu-se, ainda, por uma série de eventos-satélite em todo o território nacional, incluindo a 26ª Sessão Ordinária da Academia Brasileira de Ciências e o XI Simpósio de Lasers, em Recife (PE); a mesa de debate “A política de Ciência, Tecnologia e Inovação que o Brasil necessita”, organizada pelo Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ; o 16o workshop do Projeto do Proteoma Humano, no Rio de Janeiro (RJ); o encontro “A Pesquisa na Agricultura: implicações para a sustentabilidade alimentar global”, em Goiânia (GO); e o Simpósio “Desafios para a Ciência e Tecnologia no Brasil”, organizado pela Fapesp em São Paulo (SP).
Além da já mencionada exposição sobre a história da ABC, a 68ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) incluiu também uma sessão comemorativa do centenário, da qual participaram os Acadêmicos Helena Nader, Débora Foguel, Jorge Almeida Guimarães e João Alziro Herz da Jornada, em companhia do presidente Luiz Davidovich.
O evento destacou a participação da Academia na criação da SBPC, em 1948, e a atuação conjunta das duas instituições em diversos momentos importantes da história da ciência no Brasil, como a criação da Capes e do CNPq, as Conferências Nacionais de Ciência e Tecnologia e a elaboração do Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação, aprovado no início de 2016.
“Para o futuro, impõem-se novos desafios. O patamar alcançado pela ciência e tecnologia no país permite enxergar um horizonte mais amplo, vislumbrar oportunidades e almejar um novo salto de qualidade. É preciso aumentar o impacto internacional da ciência brasileira – o que pressupõe financiamento público adequado –, melhorar a educação básica, renovar a educação superior, estimular a inovação. Enfrentar esses desafios é condição necessária para que o Brasil possa ter um desenvolvimento econômico e social sustentável. A ABC certamente terá um papel importante na consecução desses objetivos, como centro de pensamento capaz de mobilizar os melhores cientistas em torno de temas relevantes para o país.”
Luiz Davidovich

Um projeto de ciência para o Brasil
Cem anos após sua criação, a ABC tem mais de 900 membros (entre titulares, correspondentes, associados, colaboradores e afiliados) e relação consolidada com as mais importantes instituições científicas nacionais e estrangeiras. Inicia, assim, uma de suas empreitadas mais ambiciosas: “Um projeto de ciência para o Brasil”, esforço conjunto de vários grupos de estudo para desenhar prioridades de pesquisa em diferentes áreas científicas para os próximos anos.
São, ao todo, 14 grupos, com os temas “Água, solo e ar para a qualidade de vida”, “Atividades espaciais”, “Biodiversidade, ecossistemas e serviços ecossistêmicos”, “Cérebro”, “Cidades sustentáveis-inteligentes”, “Ciências agrárias”, “Ciências básicas”, “Ciências do mar”, “Energia”, “Igualdade e inclusão social”, “Mudanças climáticas, adaptação e mitigação”, “Novas tecnologias para o século XXI”, “Recursos minerais” e “Saúde”. Cada grupo é coordenado por pesquisadores especializados e tem a função de levantar o estado da arte da pesquisa científica brasileira em cada área e elencar as principais lacunas de conhecimento e possíveis estratégias para preenchê-las.

A coordenação geral do projeto está a cargo dos Acadêmicos Jerson Lima da Silva e José Galizia Tundisi. Além de Acadêmicos, a iniciativa envolve outros cientistas brasileiros de destaque em suas áreas de atuação e prevê a realização de simpósios e congressos temáticos em diferentes estados do Brasil. O objetivo final é responder, até o final de 2017, a uma pergunta que é, ao mesmo tempo, simples e de extrema complexidade: o que a ciência pode fazer pelo Brasil?
Paralelamente, outro grupo de estudos dedica-se ao registro do que a ciência já fez pelo país. A expectativa é que um trabalho minucioso de mensuração do retorno trazido pelos investimentos em ciência e tecnologia transforme-se em ferramenta valiosa para justificar a importância da pesquisa e da inovação junto a governantes, investidores e outros tomadores de decisão e impulsionar os próximos 100 anos da ciência no Brasil.