Porta-voz da ciência

A atuação de acadêmicos em ministérios, principalmente no de Ciência e Tecnologia, e sua parceria com a SBPC reforçaram a posição da Academia junto aos governos e ao Congresso Nacional na formulação de políticas científicas e educacionais. A instituição passou a ter participação ativa nos principais conselhos e comissões nacionais na área da política científica e tecnológica, empenhando-se ativamente na luta por mais recursos para a C&T e na criação dos fundos setoriais perenes para a pesquisa científica.

A ABC teve participação fundamental também nas três Conferências Nacionais de Ciência e Tecnologia realizadas no país. A primeira delas, realizada em 2001, gerou o Livro Verde, documento coordenado pelo Acadêmico Cylon Gonçalves da Silva que serve como instrumento para elaboração de diretrizes estratégicas nessa área. A segunda, em 2005, foi coordenada pelo Acadêmico Carlos Alberto Aragão de Carvalho Filho e resultou no Livro Branco, que resume as discussões do evento e traça rumos para o setor de ciência, tecnologia e inovação. Por fim, a terceira, em 2010, foi coordenada pelo Acadêmico Luiz Davidovich e deu origem ao Livro Azul, que traz novas propostas para o setor de ciência e tecnologia no Brasil, conjugando inovação e sustentabilidade.


fachada da futura sede da faperj na ruada alfândega. o prédio terá três andares que seria destinados à abc. – acervo abc

Paralelamente, a Academia passou por modificações estruturais que ampliaram sua atuação científica. A instituição expandiu progressivamente suas áreas especializadas, até chegar à configuração atual, com dez seções: Ciências Matemáticas, Ciências Físicas, Ciências Químicas, Ciências da Terra, Ciências Biológicas, Ciências Biomédicas, Ciências da Saúde, Ciências Agrárias, Ciências da Engenharia e Ciências Sociais. Geograficamente, também se espalhou pelo território nacional. Embora já houvesse atividade regional com escritórios estabelecidos em Brasília, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul, em 2009 foi consolidada no Estatuto a criação de seis vice-presidências regionais (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Sul, Nordeste e Norte), dando maior visibilidade nacional à ABC.

Em 2013, o governo do estado do Rio de Janeiro doou à Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (Faperj) um prédio situado à rua da Alfândega, no Centro, com três andares destinados à ABC. Em reforma, o edifício é destinado à futura sede do Palácio da Ciência.
No âmbito financeiro, uma novidade surgida neste período foi a criação da categoria de membros institucionais da ABC, que podem ser de caráter público ou privado. Desta maneira, ampliou-se a captação de recursos para a instituição, em esferas que vão além do governo.

Atuação internacional

Internacionalmente, a ABC expandiu sua atuação junto à Academia de Ciências do Terceiro Mundo (TWAS, na sigla em inglês, atualmente chamada Academia Mundial de Ciências para o Avanço da Ciência nos Países em Desenvolvimento), organização internacional fundada em 1983, com a participação de pesquisadores brasileiros. A instituição tem como missão promover o progresso da ciência e da tecnologia nos países em desenvolvimento e, para isso, reúne em seus quadros cientistas de países como Índia, China e África do Sul, além do Brasil, entre outros.

conferência do iap com o tema “grandes desafios e inovações integradas – ciência para a erradicação da pobreza e o desenvolvimento sustentável”, realizada no rio de janeiro em 2013. – Acervo ABC
a 6ª conferência da twas foi realizada no rio de janeiro, com apoio da abc e do governo federal. – Acervo ABC.

A parceria com a TWAS estreitou-se ainda mais quando da realização da 6ª Conferência da instituição no Rio de Janeiro, em 1997. O evento, que teve como tema “Ciência para o desenvolvimento sustentável na América Latina e no Caribe”, contou com apoio do governo brasileiro, graças às articulações feitas pelo Acadêmico José Israel Vargas, na época vice-presidente da TWAS e ministro da Ciência e Tecnologia no Brasil.
Posteriormente, o presidente da ABC, Jacob Palis, foi eleito presidente da TWAS por dois mandatos consecutivos, de 2007 a 2012. Nessa época, foi retomada a ideia de uma integração multidisciplinar entre o Brasil e os países vizinhos, tendo como ponto de partida a conferência “Avanços e perspectivas da ciência no Brasil, América Latina e Caribe”, realizada em 2007. Na programação, houve palestras com o ministro e Acadêmico Sergio Rezende, além de representantes das principais agências de fomento à pesquisa no âmbito nacional. Em seguida, cerca de 40 especialistas das dez áreas da ABC apresentaram temas de interesse, seguidos de jovens cientistas e pesquisadores dos países vizinhos, visando a um intercâmbio de ideias e projetos.

Outro evento de grande relevância, organizado pela ABC em parceria com a Academia de Ciências da Hungria, com o apoio da Unesco, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e várias entidades nacionais e internacionais, foi o Fórum Mundial de Ciências, no Rio de Janeiro, em 2013. Tendo como tema “Ciência para o Desenvolvimento Sustentável”, a reunião envolveu cerca de mil pesquisadores para debater o papel e as responsabilidades da ciência no século 21.

Ao fim do evento, gerou-se um documento que resumiu as discussões ocorridas no Rio de Janeiro. O relatório apresentava as recomendações fundamentais dos participantes acerca do futuro da pesquisa científica com vistas a um mundo mais sustentável: promover a cooperação internacional e coordenar ações nacionais para o desenvolvimento sustentável global; educar para reduzir inequidades e promover a ciência e a inovação sustentáveis a um nível mundial; conduzir a pesquisa e a inovação de forma responsável e ética; melhorar o diálogo entre a comunidade científica e os governos, a sociedade, as indústrias e os meios de comunicação, nas questões referentes à sustentabilidade; e desenvolver mecanismos sustentáveis para o financiamento da ciência.

“Os cientistas precisam, além de fazer ciência, além de se dedicar ao laboratório, participar politicamente das decisões que implicam em ciência, quer dizer, o reconhecimento da ciência pelo governo, o financiamento da ciência, as condições de trabalho.”

eduardo moacyr krieger
jacob palis na abertura do fórum mundial de ciências, em 2013. – acervo abc

Na década de 1990, a Academia havia participado ativamente das negociações que levaram, em 2000, à fundação do Painel InterAcademias (IAP, na sigla em inglês, e atual Rede Global de Academias de Ciências), que reúne academias de mais de 100 países para discutir e divulgar os aspectos científicos de diferentes questões globais, como a dinâmica populacional, as mudanças climáticas e a clonagem reprodutiva. A ABC manteve posição de destaque no órgão, tendo exercido a copresidência de 2000 a 2003, através do vice-presidente da ABC Hernan Chaimovich, e pertencido ao Comitê Executivo do órgão. A ABC foi eleita, também, para um grupo mais restrito, o Conselho InterAcademias (IAC), em que 13 países se articulam para realizar projetos de pesquisa internacionais, incluindo estudos sobre a mulher na ciência e alimentos transgênicos, realizados a pedido da Organização das Nações Unidas.

Em 2013, o IAP reuniu-se no Rio de Janeiro, em evento com 160 cientistas de 51 países, organizado pela ABC com foco na erradicação da pobreza e no desenvolvimento sustentável. O evento discutiu temas como mudanças climáticas, energia sustentável, acesso à água limpa e saneamento básico e saúde e segurança alimentar. Além disso, uma pauta importante foi o estabelecimento de parcerias que permitissem ao IAP ampliar sua atuação, por exemplo, por meio do apoio financeiro da iniciativa privada.

o presidente da abc, jacob palis, participa do evento avanços e perspectivas da ciência no brasil, américa latina e caribe, em 2007. – acervo abc

Projetos para um Brasil melhor

No Brasil, em 1996, a ABC sediou a Comissão Nacional Independente sobre os Oceanos, uma iniciativa presidida pelo então ministro de Ciência e Tecnologia e Acadêmico José Israel Vargas. A ideia, que surgiu na celebração dos 500 anos da famosa viagem de Vasco da Gama, gerou um relatório e uma pesquisa de opinião pública sobre o mar.

Já em 2009, a ABC patrocinou as atividades brasileiras do Ano Internacional da Terra, que incluíram a conferência “Geociências nos países de língua portuguesa: um passado comum para um futuro de integração”. Como temas prioritários, destacaram-se águas subterrâneas, desastres naturais, Terra e saúde, clima, recursos naturais e energia, megacidades, núcleo e crosta terrestres, oceanos, solos e Terra e vida.

Em 2012, a ABC promoveu o Fórum sobre Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável, evento preparatório à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), com o objetivo de discutir possíveis agendas de pesquisa e diretrizes estratégicas. Na ocasião, lançou o projeto “+20 Ideias para girar o mundo”, que reúne em vídeo declarações de personalidades sobre sustentabilidade. Vários Acadêmicos participaram, como Sérgio Mascarenhas, Mayana Zatz e Carlos Alberto Aragão.

Por fim, nas últimas décadas a ABC conduziu uma série de estudos estratégicos sobre temas de grande relevância, como recursos hídricos, reforma do Ensino Superior, uso sustentável de recursos da Amazônia, doenças negligenciadas, aprendizagem infantil e ensino de ciências na educação básica. Os projetos foram desenvolvidos por grupos seletos de especialistas e seus resultados foram publicados como contribuições destinadas à formulação de políticas públicas.

equipe organizadora do 1º encontro nacional de membros afiliados da abc, em 2011. – acervo abc

Ações para todas as idades

A ABC investiu, ainda, no estímulo às vocações científicas, com a criação, em 1994, do Programa Aristides Leão, que abriu a jovens universitários a oportunidade de estagiar em laboratórios dirigidos por acadêmicos durante as férias de verão. O projeto, que teve apoio do CNPq, foi interrompido em 2005 e retomado em 2014, desta vez com foco no treinamento de jovens da região amazônica, que realizaram estágios em diferentes estados do Brasil, com apoio da Capes. 

o programa abc na educação científica – mão na massa é voltado para professores do ensino básico. – acervo abc

Outra iniciativa visando a formação de novos talentos para a ciência foi a criação de um programa de membros afiliados de até 40 anos, que já selecionou mais de 150 jovens pesquisadores desde 2007. Cada cientista permanece no programa por um período de cinco anos. A cada dois anos, a ABC realiza um Encontro Nacional de Membros Afiliados, no qual os pesquisadores apresentam aos colegas o andamento de suas pesquisas e discutem um tema em especial. Na última reunião, em 2016, os três assuntos escolhidos foram “O impacto da ciência brasileira”, “Independência e autonomia dos jovens cientistas” e “Publicação como meio e não como fim”. O evento resultou em um documento final, que sintetiza as principais discussões realizadas.

Para a promoção da igualdade de gênero na pesquisa científica, junto à Unesco e com apoio da L’Oréal, a ABC participa, desde 2011, do prêmio Para Mulheres na Ciência, que concede recursos a jovens pesquisadoras para o desenvolvimento de seus projetos nas diversas áreas do conhecimento (veja o quadro “A vez das mulheres”).

vencedoras da décima edição do prêmio para mulheres na ciência, em 2015. – divulgação l’oréal

A vez das mulheres

“O mundo precisa de ciência. A ciência precisa de mulheres”. Este é o mote do prêmio criado pela L’Oréal em 1998, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Com o objetivo de reconhecer e incentivar a carreira de jovens pesquisadoras em diferentes áreas da ciência, em seus 18 anos de existência, o prêmio global já ofereceu bolsas de pesquisa a cientistas da África e dos países árabes, da Ásia e do Pacífico, da Europa, da América Latina e da América do Norte.

No Brasil, a iniciativa chegou em 2006 e, até a edição de 2016, já havia recebido mais de 3,4 mil projetos inscritos e laureado 75, que receberam, no total, cerca de R$ 3,5 milhões em auxílio para pesquisa. A ABC é parceira da L’Oréal no prêmio e comanda a seleção das vencedoras.