Nasce a Sociedade Brasileira de Ciências

Uma ciência tímida: talvez esta seja a melhor forma de qualificar a ciência que existia no Brasil na virada do século XIX para o século XX. Apesar das várias instituições que já realizavam ou apoiavam pesquisas e das publicações que divulgavam seus resultados, o país ainda carecia de um cenário científico mais robusto e organizado. A Primeira Guerra Mundial escancarou essa e outras fragilidades nacionais – por exemplo, a vulnerabilidade da economia brasileira, devido à forte dependência das importações.

Mas foi justamente durante esse período de guerra, enquanto os olhos do mundo se voltavam para a Europa, que o Brasil iniciou um processo importante de renovação, um movimento de afirmação da produção cultural e científica do país. Nos salões da Escola Politécnica do Rio de Janeiro – uma das mais importantes instituições científicas de sua época, ao lado do Museu Nacional, do Observatório Nacional e do Instituto Soroterápico Federal em Manguinhos –, a preocupação com os rumos da ciência no Brasil era particularmente relevante.

Resumo da ata de criação da sociedade brasileira de ciências, em 3 de maio de 1916. (Acervo ABC).
Logotipo da sociedade brasileira de ciências. – Acervo ABC.

Ali, um punhado de professores renomados e inventivos começou a idealizar uma associação que transcendesse os muros da Escola e abrigasse também profissionais de outras especialidades além das engenharias. Eles tinham como objetivo primordial reunir os principais cientistas do Brasil para discutir e divulgar pesquisas importantes nas diferentes áreas do conhecimento, impulsionando o desenvolvimento da ciência pura no país, ou seja, da ciência desvinculada de interesses industriais ou comerciais – uma orientação que, vale notar, seria contestada por parte da comunidade científica, em especial aquela ligada às ciência médicas.

Pelo esforço conjunto de Everardo Adolpho Backheuser, Antônio Ennes de Souza e Alberto Betim Paes Leme – os primeiros idealizadores da associação –, e Henrique Morize – o principal concretizador da ideia – foi criada, em 3 de maio de 1916, da Sociedade Brasileira de Ciências (SBC). Era a terceira academia nacional de ciências fundada nas Américas, depois da norte-americana (instituída em 1863) e da argentina (criada em 1874).

“A Sociedade Brasileira de Ciências é uma associação de trabalhadores intelectuais resolvidos a consagrar todos os seus esforços ao progresso da ciência e ao engrandecimento do nosso querido Brasil.” 

Henrique Morize
Capa do jornal a época (16/05/1917) noticia a posse da primeira diretoria eleita da Sociedade Brasileira de Ciências. – Reprodução.

Além dos quatro nomes já citados, a nova instituição tinha o respaldo de vários outros cientistas, incluindo Allypio de Miranda Ribeiro, Alberto Childe, Alberto Betim Paes Leme, Edgard Roquette-Pinto, Joaquim Cândido da Costa Senna e Manuel Amoroso Costa, entre outros, que participaram formalmente de sua criação. Em seguida, outros pesquisadores também foram convidados a se juntar ao grupo, e, assim, a recém-criada SBC passou a contar com Roberto Marinho de Azevedo, Adalberto Menezes de Oliveira, Alfredo Loefgren, Arthur Alexandre Moses, Adolfo Lutz, Bruno Lobo, Juliano Moreira, Oswaldo Gonçalves Cruz, Antônio Pacheco Leão, Henrique Aragão, Álvaro Osório de Almeida, Cândido Firmino de Mello-Leitão, Carlos Chagas e outros cientistas de peso.

Pelas mãos desses pesquisadores, os estatutos da associação começaram a ganhar forma, sob a liderança de uma diretoria provisória eleita ainda em 1916 e chefiada por Henrique Morize. Estabeleceu-se, assim, que a Sociedade seria formada por 100 membros efetivos, divididos em três seções, seguindo o modelo da academia francesa: Ciências Matemáticas (que compreendiam, além da matemática propriamente dita, a astronomia e a física matemática), Ciências Físico-Químicas (que incluíam física, química, mineralogia e geologia) e Ciências Biológicas (que abrangiam a biologia, a zoologia, a botânica e a antropologia, entre outras disciplinas). A SBC teria, também, sócios beneméritos (cientistas brasileiros com notadas contribuições à Sociedade) e honorários (pesquisadores internacionais de notável merecimento) em número indeterminado.

O pesquisador que desejasse se associar à instituição deveria se inscrever por carta ou ser indicado por três sócios efetivos. Em sua apresentação, era necessário incluir uma relação de trabalhos realizados, títulos obtidos e a seção na qual se almejava vaga, além de exemplares de publicações científicas que permitissem comprovar se tratar de um “brasileiro de notável saber científico”. O material era analisado por uma comissão especial e, se o parecer fosse favorável, o nome do candidato era submetido à votação na seção especializada a que ele se candidatava e ao plenário geral da SBC. Para ser admitido, o candidato precisava que a maioria absoluta dos votos dos sócios fosse favorável à sua entrada. Essa seletividade, que, para alguns, demonstrava certo elitismo, gerou críticas contumazes à SBC em seus primeiros anos.

Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde foi criada a Sociedade Brasileira de Ciências. – Museu da Imagem e do Som.

Para continuar sócio da SBC, os cientistas deveriam contribuir com, no mínimo, um trabalho original por ano e pagar uma anuidade estabelecida. Os inadimplentes eram afastados, assim como os sócios que utilizassem as reuniões da Sociedade para discutir assuntos não científicos. Também eram destituídos aqueles que usassem a imprensa para criar ou fomentar polêmicas sobre questões referentes à instituição. Nos primeiros anos, a SBC se manteve financeiramente com as contribuições dos sócios – muito embora nem todos pagassem as anuidades, cujo valor (200$000) era considerado alto para a época – e doações de órgãos públicos, incluindo diferentes ministérios.

Nas primeiras sessões delinearam-se as principais linhas de atuação da Sociedade Brasileira de Ciências, notadamente o incentivo à ciência desvinculada de objetivos comerciais ou industriais e voltada ao engrandecimento do país, a organização de cursos e conferências de formação e vulgarização de temas científicos e a divulgação de resultados de pesquisas originais em uma revista especializada. Outro objetivo almejado pela entidade era servir como uma espécie de bússola da ciência feita no Brasil, sugerindo aos pesquisadores temas importantes para estudo. Nesse sentido, a nova geração de cientistas tinha como diretriz trabalhar sobre os desafios impostos pela realidade nacional, em vez de buscar temas nas principais linhas de pesquisa da comunidade científica internacional. Vale lembrar que, entre os primeiros membros da Sociedade, estava o sanitarista Oswaldo Cruz, cuja vida científica foi dedicada ao enfrentamento dos problemas de saúde pública nacionais.


Uma iniciativa para dar frutos

Em 1917, tomou posse a primeira diretoria eleita da SBC, composta por Henrique Morize (presidente), Joaquim Candido da Costa Senna e Juliano Moreira (vice-presidentes), Alfredo Loefgren (secretário), Betim Paes Leme (tesoureiro) e Edgard Roquette-Pinto (segundo secretário). Em seu discurso de posse, Morize, que era diretor do Observatório Nacional e professor de física da Escola Politécnica, exprimiu a filosofia da nova instituição: “A Sociedade Brasileira de Ciências é uma associação de trabalhadores intelectuais resolvidos a consagrar todos os seus esforços ao progresso da ciência e ao engrandecimento do nosso querido Brasil”, afirmou. Seu objetivo era promover a “ciência pura, da qual resultam as aplicações tão espontaneamente como à flor sucede o fruto”. Para Morize e seus colegas na SBC, portanto, a ciência era uma condição necessária para se chegar a aplicações úteis ao país, o que hoje se conhece como tecnologia e inovação.

A fim de fomentar a interação entre seus membros, a SBC se propunha a realizar reuniões mensais e bimestrais, que serviriam à discussão de trabalhos científicos originais e que obedecessem a padrões metodológicos considerados modernos. Havia uma preocupação de eliminar o caráter “artesanal” da pesquisa científica brasileira daquela época. 

Capa da revista da sociedade brasileira de sciencias, primeira publicação da SBC. – Acervo ABC

“O fim principal da Sociedade Brasileira de Ciências consiste em espalhar essa noção da importância da ciência como fator de prosperidade nacional.” 

Henrique Morize
As primeiras conferências de divulgação científica da sbc foram realizadas no auditório da biblioteca nacional, na cinelândia. (Marc ferrez / Domínio público)

Outro ponto importante levantado no discurso de posse de Morize era a importância de se divulgar a ciência feita no Brasil e a relação dessa ciência com o desenvolvimento do país. “O fim principal da Sociedade Brasileira de Ciências consiste em espalhar essa noção da importância da ciência como fator de prosperidade nacional”, proferiu, possivelmente inspirado pelo pensamento do fisiologista francês Louis Couty (1854-1884), antigo professor da Politécnica e fervoroso defensor da divulgação científica no Brasil, para quem era de extrema importância promover, na população brasileira, um “estado de espírito” ou uma “corrente científica” que valorizasse a busca do conhecimento pela investigação.

A gestão de Morize foi marcada por uma atividade intensa nessa área. Já em 1917 foi criada a Revista da Sociedade Brasileira de Sciencias, com o propósito de apresentar a ciência como fator de prosperidade nacional. A publicação divulgava resultados de pesquisa dos membros da Sociedade e de pesquisadores externos, além da transcrição de conferências e discursos e das atas das reuniões da entidade. No mesmo ano, a Sociedade realizou sua primeira conferência de divulgação científica, proferida pelo sócio e professor Mário Ramos. O encontro teve como tema “A radiotelegrafia ultrapotente e o desenvolvimento da ciência elétrica” e lotou o auditório da Biblioteca Nacional, obtendo repercussão na imprensa da época, que se apressou em anunciar a realização de palestras futuras sobre biologia, física e astronomia.

Também nessa fase inicial, a SBC recebeu seus primeiros visitantes ilustres, dos quais destaca-se o médico e psicólogo francês George Dumas, da Universidade Sorbonne, que esteve no Brasil pela primeira vez em 1917 – retornaria em 1922, para presidir a instalação do Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura, ligado à Sociedade Brasileira de Ciências. A promoção de palestras de cientistas estrangeiros para o público brasileiro era uma das prioridades da nova associação em sua primeira década de atividades.

George Dumas (1866-1946) – domínio público
Foto da equipe que viajou a sobral (CE) para observação do eclipse. contando da esquerda para a direita, Henrique Morize é o quarto, de pé. (Acervo ABC)
A observação do eclipse pelos cientistas permitiu a comprovação da teoria da relatividade de Albert Einstein. – f. w. dyson, a. s. eddington, c. davidson.

Sobral no mapa da física

A Teoria da Relatividade do físico alemão Albert Einstein é uma das ideias científicas mais famosas de todos os tempos. Mas talvez não seja tão famoso o fato de que ela foi comprovada por meio de observações de um eclipse solar no Brasil, em 1919. O evento movimentou a pequena cidade de Sobral, no Ceará, que recebeu uma comitiva de cientistas brasileiros e estrangeiros. No mesmo dia, outra expedição científica foi agendada para a ilha de Príncipe, na África.

O objetivo era confirmar a deflexão da luz, um fenômeno previsto por Einstein segundo o qual um feixe de luz emitido por uma estrela deveria ter sua trajetória desviada ao passar perto de um forte campo gravitacional – no caso, o do Sol. O desvio faria com que a estrela fosse observada em uma posição ligeiramente diferente e, durante o eclipse, os cientistas fizeram fotografias que comprovaram o fenômeno.

Além de participar da organização das observações do eclipse, Henrique Morize chefiou, no momento do fenômeno, a realização de medidas da coroa solar (atmosfera do Sol) com a ajuda de um espectrógrafo – instrumento que registra as diferentes cores emitidas pela luz de um objeto astronômico. 

Por meio de seus sócios, a recém-criada SBC também tomou parte nos principais acontecimentos científicos da época. Por exemplo, em 1919, Henrique Morize, presidente da Sociedade e diretor do Observatório Nacional, ajudou a escolher o melhor lugar para a observação de um eclipse solar que permitiu a confirmação do fenômeno da deflexão da luz e, consequentemente, a comprovação da Teoria da Relatividade de Albert Einstein (veja o quadro “Sobral no mapa da física”). 

No ano seguinte, o sócio Roberto Marinho de Azevedo publicou, na então Revista de Ciências (antiga Revista da Sociedade Brasileira de Sciencias), o artigo “O princípio da relatividade” – o primeiro no país destinado a divulgar a teoria de Einstein.

A intensa atividade e o grande engajamento dos cientistas nos primeiros anos da SBC reforçam a ideia de que a nova associação viera para preencher uma lacuna na vida cultural da então capital federal. “Numa capital rica e próspera como a cidade do Rio de Janeiro, era indispensável que se fundasse um grêmio, onde aqueles que estudam as questões da ciência pura pudessem encontrar fraternal agasalho”, disse Morize em seu discurso por ocasião do primeiro aniversário da Sociedade Brasileira de Ciências, em 1917. A relação estreita da SBC com a cidade se refletia em seus estatutos – curiosamente, eles especificavam que, no caso de dissolução da entidade, seus bens deveriam ser doados à municipalidade.

Capa da revista de sciencias, que traz o artigo de Roberto Marinho sobre a relatividade, além de artigos de Amoroso Costa e Henrique Morize. – Acervo ABC.

Vista com entusiasmo por seu primeiro quadro de associados, a instituição mudou de nome em 1921, quando passou a se chamar Academia Brasileira de Ciências (ABC), como é conhecida até hoje. A alteração, sugerida pelo sócio Júlio Afrânio Peixoto e aprovada por mais de dois terços de seus colegas, buscava adequar a instituição brasileira ao padrão de outras associações científicas importantes no cenário internacional e enaltecer os nobres objetivos da instituição.