Interação entre ciência e educação

Apesar das diversas dificuldades enfrentadas pela Academia Brasileira de Ciências nos anos 1920, a instituição virou o jogo na década seguinte. O marco mais memorável dessa volta por cima foi o reconhecimento oficial dos serviços prestados pela ABC à sociedade: em 14 de julho de 1934, pelo decreto número 24.785, assinado pelo então chefe do governo provisório do Brasil, Getúlio Vargas, o órgão recebeu o título de instituição de utilidade pública, voltada à cultura e ao desenvolvimento da ciência.

Como personagem fundamental deste período figura Arthur Moses, cuja presidência na ABC foi marcada por uma postura pública mais discreta e preocupada em criar coesão entre os membros da entidade. Sua atuação permitiu a continuidade da Academia e sua adaptação a um novo contexto nacional – a Era Vargas (1930-1945) – e internacional – a deflagração da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Também se deve a ele a regularidade mantida na publicação dos Anais da Academia Brasileira de Ciências, tornada possível graças ao auxílio financeiro do governo federal. Como desdobramento, a ABC pôde aumentar o número de revistas recebidas em permuta.

o decreto número 24.785, assinado por getúlio vargas, reconheceu a abc como instituição de utilidade pública. – acervo abc

getúlio vargas (1882-1954) – domínio público

O momento de reorganização e fortalecimento interno da Academia coincidiu com um período crucial para a educação superior no Brasil, no qual foram criadas várias das principais faculdades e universidades de ciências do país. A ABC, por meio de seus membros, participou desse processo. Na fundação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934, por exemplo, o Acadêmico Theodoro Ramos foi comissionado pelo governador paulista para ir à Europa contratar professores para a instituição. Lá, auxiliado pelos professores George Dumas, Paul Rivet e Pierre Janet, contatou vários cientistas e trouxe como docentes nomes como Luigi Fantappiè, Gleb Wataghin, Fernand Broudel, Paul Arbousse-Bastide, Claude Lévy-Strauss e Ernest Breslau – alguns deles se tornaram, mais tarde, membros da Academia. Da USP, vale lembrar, fazia parte a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, considerada a primeira faculdade a formar cientistas no Brasil, incluindo vários membros da Academia.

Os Acadêmicos também foram atores fundamentais na fundação da Universidade do Distrito Federal (UDF), em 1935 – idealizada por Anísio Teixeira e na qual lecionaram Júlio Afrânio Peixoto, Roberto Marinho de Azevedo e Joaquim Costa Ribeiro, entre outros –, e, em 1939, na criação da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ), que absorveu as instalações e parte dos professores da UDF. Em 1937, o Acadêmico Carlos Chagas Filho criou o Laboratório de Biofísica da mesma universidade, que hoje carrega seu nome.
Outra iniciativa merecedora de destaque na área de educação foi a criação do Instituto Nacional do Cinema Educativo (Ince), sugerida pelo então ministro da Educação e da Saúde, Gustavo Capanema, e aprovada por Getúlio Vargas em 1936. Embora o cinema já fosse utilizado, no Brasil, como ferramenta auxiliar para a pesquisa e o ensino desde o início do século XX, foi na virada entre as décadas de 1920 e 1930 que essa tendência se tornou mais forte, com a criação de salas de projeção de filmes para fins educativos nas escolas brasileiras.

fachada do edifício onde funcionaram as primeiras instalações da faculdade de filosofia, ciências e letras, na avenida doutor arnaldo. – acervo caph / fflch

“o reator argonauta” e “o puraquê” são exemplos de filmes produzidos pelo instituto nacional de cinema educativo. – reprodução

edgard roquette-pinto em palestra sobre cinema e educação, no instituto nacional de cinema educativo, em 25 de janeiro de 1940. – acervo abc

Em 1929, a Exposição de Cinematografia Educativa foi um marco importante para o uso do cinema em sala de aula, mas a criação do Ince, dirigido em seus primeiros anos pelo Acadêmico Roquette-Pinto, representou um impulso ainda maior para o fortalecimento do cinema educativo brasileiro. Sua ideia era usar os filmes como uma ferramenta ampla de educação popular.

Entre 1936 e 1966, o Ince produziu mais de 400 películas, voltadas principalmente a apoiar as disciplinas escolares e divulgar as aplicações da ciência e da tecnologia, os resultados de pesquisas científicas realizadas no Brasil e o trabalho de instituições nacionais. Entre os temas abordados pelos filmes do Ince estavam prevenção e tratamento de doenças, plantas, animais, física e cultura brasileira. O órgão contou com a participação de Acadêmicos na produção de vários títulos – por exemplo, na do filme sobre o poraquê e os mecanismos de choque do peixe-elétrico, pesquisa levada a cabo por Carlos Chagas Filho.

O pano de fundo por trás desses e outros investimentos em educação na Era Vargas era a ambição de construir uma identidade nacional relacionada à ciência e ao desenvolvimento industrial. Em 1932, 26 pensadores brasileiros, incluindo os Acadêmicos Afrânio Peixoto e Roquette-Pinto, lançaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, no qual propunham um projeto de renovação intelectual do país.


Atuação na ciência e na política

O evento científico mais importante desse período, promovido pela ABC, foi o Simpósio Internacional sobre Raios Cósmicos, no Rio de Janeiro, em 1941. O encontro, que contou com a participação de cientistas brasileiros e norte-americanos – entre os quais o físico da Universidade de Chicago Arthur Compton, ganhador do prêmio Nobel em 1927 –, incluiu a apresentação de trabalhos e a realização de experimentos sobre essas partículas de alta energia provenientes do espaço, que bombardeiam constantemente a atmosfera da Terra (veja o quadro “Raios cósmicos, chuveiros e físicos no Brasil”).

Neste período tornou-se também mais intensa a relação entre a ciência e as políticas públicas. Um exemplo concreto dessa relação foi a criação, em 1938, da Comissão de Metrologia, responsável por legislar sobre o sistema de pesos e medidas utilizado no país. O grupo era composto por cientistas, militares e enviados da indústria e de diversas entidades científicas, incluindo a ABC, representada por seu presidente, Adalberto Menezes de Oliveira. 

Raios cósmicos, chuveiros e físicos no Brasil

A todo instante, a Terra é bombardeada por partículas vindas do espaço – os raios cósmicos. Esse bombardeio constante lembra uma chuva, e a chegada das partículas à atmosfera gera muitas outras partículas de alta energia, que caem em cascata sobre a Terra: são os chamados chuveiros penetrantes. Os dois fenômenos foram estudados no Brasil por um grupo de cientistas liderado pelo físico Gleb Wataghin, que veio da Itália para tornar-se docente da USP na época de sua criação.

Wataghin foi o principal responsável pela formação dos primeiros físicos na Universidade, e teve alunos que depois se tornaram pesquisadores de destaque, como Mário Schenberg, Marcello Damy de Souza Santos, Cesar Lattes e Paulus Aulus Pompéia – todos foram também membros da ABC.

Apesar das instalações modestas de seu laboratório, a equipe – que muitas vezes criava os aparelhos necessários às suas próprias pesquisas e construiu o primeiro acelerador de partículas da América Latina – foi responsável por descobertas importantes. Na virada entre as décadas de 1930 e 1940, Wataghin, Damy e Pompéia realizaram estudos sobre raios cósmicos na atmosfera (com a ajuda de aviões da Força Aérea Brasileira, que voavam até a altura de sete quilômetros) e nos espaços subterrâneos, por meio de experimentos realizados no túnel da Avenida 9 de julho (na época, ainda em construção) e na mina de ouro de Morro Velho, a uma profundidade de 200 a 400 metros abaixo do nível do mar.
Seus resultados, de repercussão internacional, foram apresentados e discutidos no Simpósio Internacional de Raios Cósmicos. A ocasião atraiu a presença de cientistas estrangeiros como o norte-americano Arthur Compton, que realizou com o grupo de Wataghin uma expedição para detectar e medir os raios cósmicos na estratosfera (camada da atmosfera que se estende até cerca de 50 quilômetros de altitude) com a ajuda de balões meteorológicos.

Inauguração do instituto de física gleb wataghin da universidade estadual de campinas em 1966: da esquerda para a direita, paulus pompéia é o segundo; wataghin, o quarto; e marcelo damy, o sétimo. – acervo do instituto de pesquisas tecnológicas

A estreita relação entre ciência e política transpareceu, ainda, na discussão, fomentada pela ABC, acerca das armas nucleares, no final da Segunda Guerra Mundial. A aplicação de conhecimento científico sofisticado para a construção de uma arma tão destrutiva como a bomba atômica gerou, no mundo, um grande debate sobre a atividade científica. A ABC participou ativamente deste debate, não apenas no âmbito nacional, mas também em eventos internacionais. Criada em 1945, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu, no ano seguinte, uma Comissão de Energia Atômica, na qual o Brasil foi representado pelo Acadêmico Álvaro Alberto da Motta e Silva. 

A Academia promoveu, ainda, palestras públicas sobre o tema e sugeriu ao governo federal o desenvolvimento de pesquisa na área nuclear no país. Uma moção da ABC, proposta em 1945 por Álvaro Alberto e inspirada em manifestações internacionais similares, registrou o interesse dos Acadêmicos pelo uso pacífico da energia atômica e pela cooperação internacional nesta área.

Vários cientistas – incluindo Joaquim da Costa Ribeiro, Carlos Chagas Filho e Bernard Gross – assinaram o documento, que apregoava o uso pacífico da energia atômica, “para que sirva a memorável descoberta ao bem-estar e felicidade do gênero humano, e dê eficaz garantia da liberdade e da dignidade das Nações e dos indivíduos, sem as quais se fariam insubsistentes as próprias razões de viver”. O manifesto, divulgado pelo jornal Correio da Manhã em 2 de setembro, também clamava que “o maior feito da ciência organizada, na história” (a obtenção de energia atômica) deveria “tornar-se poderosa e forte influência para assegurar a paz no mundo”.

correio da manhã (14/08/1938) noticia a criação da comissão de metrologia, com participação do presidente da abc, adalberto menezes de oliveira. – reprodução
o comandante álvaro alberto da motta e silva foi personagem fundamental na mobilização da abc contra as armas nucleares. – acervo abc
moção da abc publicada no correio da manhã (02/09/1945) defendia o uso pacífico da energia atômica. – reprodução

Em sessão realizada na ABC, Álvaro Alberto defendeu que o Brasil deveria dedicar mais atenção à questão atômica, incluindo suas dimensões militares, e ressaltou que o país deveria aprofundar-se na pesquisa sobre a ocorrência de reservas de urânio em seu território. Não por acaso, foi homenageado posteriormente pela Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis, que produz a maior parte da energia nuclear do país.

Nos anos seguintes, a Academia permaneceu envolvida com o tema. Em 1961, um grupo de cientistas que incluía muitos Acadêmicos, como o então presidente Arthur Moses, publicou um manifesto que condenava as explosões nucleares, destacando a necessidade de se reiniciar as discussões sobre o desarmamento geral. No mesmo ano, foi assinado um acordo de cooperação entre o Brasil e a Comunidade Europeia de Energia Nuclear, com o objetivo de assegurar a utilização da energia atômica para fins pacíficos.