Do Brasil ao mundo

O país foi redemocratizado. Em 1985, foi criado o Ministério da Ciência e Tecnologia (veja o quadro “Um ministério para chamar de nosso”). Uma nova Constituição, promulgada em 1988, incluiu um capítulo inédito dedicado à ciência e tecnologia —  no Artigo 218, Parágrafo 1º, diz: “A pesquisa científica básica receberá tratamento prioritário do Estado, tendo em vista o bem público e o progresso das ciências”. Nas décadas de 1990 e 2000, alguns Acadêmicos ocupariam o cargo de ministros da Ciência e Tecnologia, o que ajudou a estreitar as relações da Academia com o governo federal. Especialmente a partir da década de 1990, o apoio governamental permitiu à instituição investir em novas frentes, como a produção de programas de televisão dedicados a temas ambientais e a expansão da cooperação científica internacional.

fachada do prédio do ministério da ciência e tecnologia em brasília. – mctic

Um ministério para chamar de nosso

Se a criação de um Ministério da Ciência e Tecnologia foi vista inicialmente com certa desconfiança – houve quem achasse que os temas de ciência deveriam ficar subordinados ao Ministério da Indústria e do Comércio –, 30 anos depois o quadro é completamente diferente. Diante da decisão do presidente Michel Temer de unir a pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação à de Comunicações, a comunidade científica brasileira mostrou-se receosa em relação ao que a fusão de ministérios poderia significar para o futuro da pesquisa científica brasileira. Quando a decisão foi anunciada, em 12 de maio de 2016, uma série de pesquisadores se manifestou de forma contrária.

Em parceria com a SBPC, a ABC organizou a redação de um manifesto chamado “O MCTI é o motor do desenvolvimento nacional”, no qual destacava o papel crucial do Ministério na história da ciência no Brasil, incluindo a atuação na gestão de duas dezenas de institutos de pesquisa, além da responsabilidade na tomada de decisões técnicas e do apoio à pesquisa científica no país como um todo. A união artificial dos dois ministérios, argumentou-se no manifesto, ameaça o desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação do país.

Apesar dos protestos da comunidade científica, a fusão se concretizou, dando origem ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. O novo órgão gere atividades tão díspares quanto a atuação de empresas de correio e a pesquisa espacial.

fachada do prédio do ministério da ciência e tecnologia em brasília. – mctic

Ciência para salvar o planeta

Em 1986, foi instalada na ABC a comissão brasileira do Programa Internacional Geosfera-Biosfera (IGBP, na sigla em inglês), uma rede global de cientistas voltada ao estudo das mudanças climáticas globais e do sistema terrestre, com vistas à compreensão das alterações ambientais em curso no planeta. O Programa fez parte das atividades do Conselho Internacional para a Ciência (ICSU, na sigla em inglês), do qual a Academia foi designada como representante brasileiro, em 1992, pelo CNPq.

Fundado em 1931 para promover a atividade científica internacional em benefício da humanidade, o ICSU é uma das organizações não governamentais mais antigas do mundo. Ele abrange a representação das sociedades científicas internacionais e das academias de ciências e outras organizações de abrangência nacional em diferentes países, unindo os esforços dessas instituições em um grande número de programas e iniciativas interdisciplinares, além de projetos relacionados a questões globais, incluindo o já citado exemplo das mudanças climáticas.

O surgimento do IGBP foi incentivado pela constatação de que os grandes problemas globais que afetam o ambiente, ameaçando o futuro dos ecossistemas e da própria espécie humana, não podem ser resolvidos pelos países isoladamente. Ao contrário, exigem um esforço conjunto, tanto no que diz respeito aos países envolvidos quanto em relação as áreas da ciência que devem ser mobilizadas para pensar soluções para os problemas que se apresentam. Um trabalho interdisciplinar de cooperação global foi, portanto, a alternativa mais promissora de ação sobre o curso das mudanças globais causadas pela ação do homem.

Entre os temas que foram estudados no âmbito dessa iniciativa estão processos meteorológicos, climatológicos e oceanográficos globais e seus impactos sobre a biosfera, incluindo, por exemplo, o El Niño, a redução da camada de ozônio e o efeito estufa. O exame das mudanças ocorridas no passado da Terra, por meio de estudos geológicos, foi outra vertente, assim como a ação antrópica sobre a natureza. Durante três décadas, o IGBP mobilizou cientistas de vários países, encerrando suas atividades no final de 2015.

Outra iniciativa voltada à discussão sobre a preservação do meio ambiente abraçada pela ABC foi a organização da RioCiência-92 durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e o Desenvolvimento (Eco-92), no Rio de Janeiro. O evento, organizado em conjunto com a SBPC e a UFRJ, incluiu uma série de discussões sobre as relações entre ecologia, ciência e política.

a pesquisa brasileira na antártica ganhou força na década de 1980. – pixabay.com / domínio público
matéria no jornal do brasil (27/05/1992). a realização da eco-92 no rio de janeiro levantou no país uma série de discussões sobre meio ambiente. – reprodução

Novas publicações

Entre as iniciativas de cunho científico, destacou-se neste período a criação da revista Pesquisa Antártica Brasileira, em 1989, com apoio do CNPq. Publicado inicialmente como suplemento dos Anais da ABC, o periódico divulga até hoje os resultados de pesquisas realizadas no âmbito do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), impulsionado pela construção, em 1982, da primeira base brasileira no continente gelado, a Estação Antártica Comandante Ferraz. Destruída por um incêndio em 2012, a base encontra-se em processo de reconstrução, com inauguração prevista para 2018. Sem periodicidade definida, as edições são publicadas à medida que haja suficientes artigos científicos aceitos para compor um novo número da revista.

Na década de 1990, precisamente em 1992, a ABC iniciou também outra publicação, o informativo eletrônico Boletim do Acadêmico, atualmente denominado Notícias da ABC. Destinado inicialmente a divulgar as atividades da Academia e dos Acadêmicos aos próprios membros da instituição, o boletim estabeleceu-se também como um canal de diálogo da ABC com a sociedade.

Capa da revista da sociedade brasileira de sciencias, primeira publicação da SBC. – Acervo ABC