Ciência: caminho de desenvolvimento
A eleição de Carlos Chagas Filho para a presidência da ABC, em 1965, confirmou a ascendência na entidade de pesquisadores da área biológica, que já vinha ocorrendo desde a década de 1930, em relação ao grupo fundador, formado principalmente por engenheiros, matemáticos e físicos. Sua gestão, como as que a seguiram, caracterizou-se por uma preocupação política, relacionada à crescente importância econômica atribuída à pesquisa científica pelas esferas governamentais.
A preocupação traduziu-se em ações concretas, como a criação da pós-graduação e o aumento dos recursos destinados à ciência e à tecnologia durante o regime militar, que tinha como discurso a promoção do desenvolvimento nacional. Em 1966, o presidente Castelo Branco autorizou, durante a celebração dos 50 anos da ABC, a doação de número significativo de Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional à Academia – o equivalente, na época, a US$ 1 milhão –, com a justificativa de fortalecer a ciência e a tecnologia no país. A entidade teve seu papel destacado no I e II Plano Básico de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (1973/74 e 1975/79).

Foram criadas nesse período a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), em 1967; o Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação (FNDE), em 1968; e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), em 1969; além da Empresa Brasileira de Aeronáutica S.A. (Embraer), também em 1969; da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 1972; e do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), em 1973; e do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em 1980.
Paradoxalmente, durante o regime ditatorial, muitos cientistas brasileiros, incluindo Acadêmicos, foram perseguidos e exilados. A ABC manifestou preocupação, em agosto de 1965, com a invasão da UnB, que levou, no mês seguinte, ao pedido de demissão de duas centenas de professores – alguns dos quais membros da ABC. No mesmo ano, manifestações de intelectuais e artistas, dentre os quais alguns Acadêmicos, condenavam as práticas do regime militar. Por outro lado, outros Acadêmicos apoiaram, no primeiro aniversário do golpe civil-militar, a publicação de um manifesto em prol das ações governamentais. Diante do quadro, a ABC adotou, ao longo do período da ditadura militar, uma postura discreta e cuidadosa em relação aos acontecimentos políticos.

Cientistas cassados
Durante o regime militar, cerca de 50 membros ou futuros membros da ABC foram atingidos por medidas ditatoriais, que incluíram prisão, aposentadoria, demissão, censura, impedimento ou cerceamento de exercer a atividade científica.
- Amilcar Vianna Martins
Médico parasitologista
Foi aposentado compulsoriamente do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) pelo AI-5. - Antônio Rodrigues Cordeiro
Geneticista
Um dos criadores da UnB, foi demitido da instituição em 1965. - Bernardo Boris Vargaftig
Farmacologista
Indicado por Vital Brazil para assistente do Departamento de Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas de Campinas, teve a nomeação negada. Foi preso em 14 de julho de 1964 e ficou detido por mais de 50 dias no navio-prisão Raul Soares. - Bolivar Lamounier
Cientista político
Professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), foi aposentado compulsoriamente em 1969 com base no AI-5 mesmo sem ser funcionário público. - Carlos Medicis Morel
Biólogo
Conseguiu uma bolsa de doutorado no exterior pelo Conselho Nacional de Pesquisas em 1969, mas não recebeu o benefício por determinação dos órgãos de segurança do governo. - Celso Furtado
Economista
Ministro do Planejamento do governo João Goulart, teve os direitos políticos cassados em 1964, com base no AI-1. - Elisa Esther Frota Pessoa
Física
Demitiu-se da UnB em 1965, devido às perseguições políticas na Universidade. Tornou-se pesquisadora do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas foi aposentada compulsoriamente da função em 1969 com base no AI-5 e, no mesmo ano, demitida do CBPF. - Elza Salvatori Berquó
Demógrafa
Pesquisadora do Centro de Estudos de Dinâmica Populacional e catedrática da Faculdade de Higiene da Universidade de São Paulo (USP), foi aposentada compulsoriamente em abril de 1969 com base no AI-5. - Erney Felício Plessman de Camargo
Médico parasitologista
Foi denunciado por atividades subversivas pela comissão interna da USP, onde era professor, e demitido em outubro de 1964 com base no AI-1 e submetido a Inquérito Policial Militar. Retornou ao trabalho, mas foi demitido novamente com base no AI-5. - Ernst Hamburger
Físico
Foi preso em 1970, quando era secretário-geral da Sociedade Brasileira de Física (SBF), e ficou detido por algumas horas. Convidado a lecionar na Inglaterra, teve o exercício da profissão coibido pelo impedimento de sair do Brasil. - Fernando Braga Ubatuba
Médico
Preso em 1968 na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), foi levado para o paiol de pólvora do exército, em Paracambi. Em abril de 1970, foi aposentado compulsoriamente do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) no evento conhecido como Massacre de Manguinhos, e em novembro do mesmo ano foi aposentado da Universidade. - Haity Moussatché
Médico
Teve os direitos políticos suspensos e foi aposentado compulsoriamente do IOC em abril de 1970 com base no AI-5, no evento conhecido como Massacre de Manguinhos. - Herman Lent
Médico parasitologista
Teve os direitos políticos suspensos e foi aposentado compulsoriamente do IOC em abril de 1970 com base no AI-5, no evento conhecido como Massacre de Manguinhos. - Hugo de Souza Lopes
Médico veterinário
Teve os direitos políticos suspensos e foi aposentado compulsoriamente do IOC em abril de 1970 com base no AI-5, no evento conhecido como Massacre de Manguinhos. - Isaías Raw
Bioquímico
Foi preso e ficou detido por 13 dias, denunciado por atividades subversivas pela comissão interna da USP, onde era professor. Submetido a Inquérito Policial Militar, foi aposentado compulsoriamente em abril de 1969 com base no AI-5.
- Jayme Tiomno
Físico
Demitiu-se da UnB em 1965, em solidariedade aos colegas perseguidos. Tornou-se professor da USP, de onde foi aposentado em 1969, quando teve seus direitos políticos cassados pelo AI-5. Foi também afastado do CBPF. - João Cristóvão Cardoso
Químico
Professor catedrático do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi aposentado compulsoriamente em abril de 1969 com base no AI-5. - José Israel Vargas
Físico
Professor da Faculdade de Filosofia da UFMG e assessor técnico da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); com o golpe civil- militar de 1964, foi demitido da CNEN e afastado da UFMG. - José Leite Lopes
Físico
Foi preso e ficou detido por um dia e submetido a Inquérito Policial Militar logo após o golpe civil-militar. Afastou-se, então, do cargo de diretor do CBPF. Em 1969, foi aposentado compulsoriamente da UFRJ com base no AI-5 e demitido do CBPF no mesmo ano. Retornou em 1986, a convite do então ministro da Ciência e Tecnologia, Renato Archer. - José Reinaldo Magalhães
Fisiologista
Professor do Instituto Central de Biociências da UnB, foi preso e demitido da Universidade em 1965. - Luiz Fernando Gouvêa Labouriau
Botânico
Deixou a UnB em 1973 devido a perseguições políticas. - Luis Hildebrando Pereira da Silva
Médico parasitologista
Foi denunciado por atividades subversivas por uma comissão da USP e demitido em 1964. Retornou em 1968 para a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, mas foi aposentado em 1969, com base no AI-5. - Maria Laura Mouzinho Leite Lopes
Matemática
Foi aposentada compulsoriamente da UFRJ em abril de 1969, com base no AI-5, e, em julho do mesmo ano, foi aposentada também da função de professora do ensino médio. - Mario Schenberg
Físico
Ficou preso por 50 dias, denunciado por atividades subversivas pela comissão interna da USP, instituída em 1964, e submetido a Inquérito Policial Militar, além de ter sua biblioteca destruída. Posteriormente, em abril de 1969, foi aposentado compulsoriamente com base no AI-5, sendo proibido até mesmo de frequentar a Universidade. - Michel Pinkus Rabinovitch
Médico parasitologista
Foi convidado em 1964 a integrar a equipe de professores da UnB e chegou a ser nomeado, mas não tomou posse na nova Universidade em função do golpe civil-militar. Na USP, foi denunciado por atividades subversivas pela comissão interna da Universidade e indiciado em Inquérito Policial Militar. Tentaram prendê-lo durante uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, sem sucesso – ele conseguiu fugir e ficou escondido por dez dias. - Simon Schwartzman
Sociólogo e cientista político
Professor da UFMG, foi preso por três meses no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de Belo Horizonte. Depois de solto, foi
mantido em prisão domiciliar e impedido de retornar à Universidade. - Thomas Maack
Médico fisiologista
Foi detido em seu laboratório na USP em 1964 e levado para o navio-prisão Raul Soares, onde ficou preso por cerca de quatro meses. Foi denunciado por atividades subversivas pela comissão interna da Universidade, submetido a Inquérito Policial Militar e demitido da instituição com base no AI-1. - Tito Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque
Médico fisiologista
Teve os direitos políticos suspensos e foi aposentado compulsoriamente do IOC em 1970, com base no AI-5, no evento conhecido como Massacre de Manguinhos. - Victor Nussenzveig
Médico
Professor da Faculdade de Medicina da USP, foi submetido a Inquérito Policial Militar. - Walter Oswaldo Cruz
Médico patologista
Pesquisador e chefe da Divisão de Patologia do IOC, foi submetido em 1966 à comissão de inquérito interna constituída para investigar denúncias de malversação de verbas e atividades subversivas na instituição. - Wanderley Guilherme dos Santos
Cientista político
Professor do Departamento de Filosofia do Instituto Superior de Estudos Brasileiros, foi aposentado compulsoriamente em outubro de 1964 com base no AI-1.

Notícias de uma instituição cinquentenária
Em 1966, a ABC passou por uma profunda reformulação de estatuto. Além de modificar as categorias de membros, a nova versão detalhou minuciosamente o rigoroso processo seletivo de novos acadêmicos.
Neste período, também, a Academia voltou a fortalecer sua agenda de conferências, reuniões e simpósios, promovendo intercâmbio com instituições nacionais e internacionais. O astronauta norte-americano Richard Gordon, por exemplo, proferiu palestra na ABC em 1966. Em 1970, o Simpósio Brasileiro de Paleontologia, na sede da Academia, reuniu especialistas de vários países para discutir a pesquisa sobre a pré-história do Brasil. Em 1978, teve início uma série de conferências realizadas em parceria com a IBM, com vistas à promoção da interação entre a comunidade científica e a indústria, que trouxe ao Brasil renomados pesquisadores estrangeiros, muitos deles ganhadores de prêmios Nobel, para falar sobre economia, química e matemática. Na ocasião, foi instituído o Prêmio de Ciência e Tecnologia Academia-IBM, destinado a cientistas brasileiros.
A cinquentenária ABC começou também a deslocar algumas de suas atividades para outras cidades além do Rio de Janeiro. Em 1966, o Acadêmico e vice-presidente da ABC Paschoal Senise presidiu a primeira sessão regular da Academia em São Paulo, no campus da USP.

as conferências realizadas em parceria com a ibm incluíram diversos convidados internacionais e buscavam estimular a interação entre comunidade científica e indústrias. – reprodução/ jornal do brasil (19/08/1978)
jornal do brasil (22/09/1970) noticia o simpósio brasileiro de paleontologia. – reprodução
Além da publicação constante dos Anais da ABC, em 1981 a Academia assumiu a Revista Brasileira de Biologia, que havia sido criada em 1940 pela Sociedade Brasileira de Biologia, com foco na fauna e flora neotropicais. A revista ficaria nas mãos da ABC até 1998, quando passou a ser publicada pelo Instituto Internacional de Ecologia.
Do ponto de vista institucional, a ABC procurou estabelecer ou fortalecer convênios já existentes com suas congêneres estrangeiras, incluindo a Sociedade Japonesa para a Promoção da Ciência e os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. A instituição reforçou suas atividades científicas, lançando-se na coordenação de programas de pesquisa multidisciplinar sobre uma variedade de temas, incluindo o estudo sistemático e químico da flora amazônica, da biodiversidade do Nordeste e do cerrado do estado de Minas Gerais. Participou, ainda, por meio de seus membros, da criação dos primeiros cursos de pós-graduação em diferentes universidades brasileiras.