A médica e pesquisadora Mecia Maria de Oliveira, membro associada da Academia Brasileira de Ciências (ABC) desde 1963, teve sua trajetória científica marcada pela excelência acadêmica, pela atuação internacional e por contribuições relevantes nas áreas de bioquímica, biofísica e parasitologia, com destaque para os estudos sobre a Doença de Chagas.

Graduou-se em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e obteve o doutorado em ciências biológicas pela mesma instituição. Complementou sua formação com especialização em bioquímica no National Institutes of Health (NIH), nos Estados Unidos, além de estágios de pós-doutorado realizados na Itália, na Inglaterra e nos Estados Unidos, consolidando uma formação científica internacional de alto nível.

A escolha pela carreira científica foi definida ainda durante a graduação, quando realizou estágio de Iniciação Científica no laboratório do Dr. Walter Oswaldo Cruz, no Instituto Oswaldo Cruz. Embora desde o ensino secundário demonstrasse interesse pela ciência, foi sob a orientação rigorosa e inspiradora de Walter Oswaldo Cruz que decidiu dedicar-se definitivamente à pesquisa médica, influência que reconheceu como determinante ao longo de toda a sua vida profissional.

Após concluir o curso médico, Mecia passou dois anos como postdoctoral fellow no laboratório da Dra. Martha Vaughan, no National Heart Institute (NIH), onde participou de estudos pioneiros sobre o fenômeno de acilação-desacilação de fosfolipídeos, mecanismo fundamental para o remodelamento das membranas celulares e hoje reconhecido como parte essencial da cascata de sinalização celular. Em seguida, atuou por três anos como research associate no laboratório do Dr. Alvin Nason, na Johns Hopkins University, investigando o papel do alfa-tocoferol (vitamina E) na cadeia oxidativa mitocondrial e nas membranas celulares. Esse trabalho fundamentou a tese apresentada ao Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ.

Sua carreira docente e científica incluiu passagens como professora visitante pela Universidade de Brasília (UnB) e como professora adjunta de Biofísica da Escola Paulista de Medicina, onde atuou no departamento chefiado pelo professor Antonio C. M. Paiva. Posteriormente, retornou ao Rio de Janeiro para integrar o Instituto de Biofísica, então dirigido por Carlos Chagas Filho, com quem desenvolveu estudos sobre propriedades de membranas celulares, ampliando sua atuação científica.

Ao longo dos anos, seu interesse concentrou-se especialmente na Doença de Chagas, investigando propriedades de membrana do Trypanosoma cruzi, com ênfase nos mecanismos de transdução de sinal associados ao controle da proliferação do parasita. Atuou também como professora na UFRJ, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e como pesquisadora na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Foi ainda consultora ad hoc da Faperj e do CNPq.

Além da pesquisa, dedicou-se intensamente à formação de recursos humanos, orientando estudantes de graduação e pós-graduação e coordenando atividades de divulgação e intercâmbio científico. Fora do laboratório, cultivava o interesse pela observação de aves, pela literatura e pela música. Seu legado permanece na ciência brasileira por meio de suas contribuições científicas, de seus alunos e de sua atuação institucional comprometida com o avanço do conhecimento.