Sobre o Cientista

Natural de Campinas, ingressou na Escola Politécnica de São Paulo em 1933. A mudança da engenharia para a física se deu a convite do físico Gleb Wataghin, de quem era aluno ouvinte, após a unificação dos cursos básicos da Politécnica e da recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP). Em 1938, já bacharel, tornou-se assistente de Wataghin, dedicando-se aos estudos dos raios cósmicos. Após estágio na Universidade de Cambridge, Inglaterra, participou no Brasil da fabricação de um sonar para detecção de submarinos, importante contribuição à Marinha brasileira na época da Segunda Guerra Mundial. Fundou, em 1956, o Instituto de Energia Atômica da USP, atual Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, onde foi responsável pela instalação do primeiro reator nuclear do Brasil. Presidiu a Comissão Nacional de Energia Nuclear e lecionou na USP, na Universidade Estadual de Campinas, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, entre outras instituições. Ingressou na ABC em 1942 e foi vice-presidente da entidade no biênio 1955-1957.

o jovem marcelo damy em experimento na mina de morro velho, em 1939. acervo histórico do instituto de física da usp

damy participou, com outros cientistas, de importantes descobertas relacionadas à natureza dos chuveiros penetrantes. – nasa

Entre raios cósmicos e energia nuclear

Numa época em que não havia muitos recursos no Brasil para o estudo dos raios cósmicos, Marcelo Damy aproveitou a oportunidade de estágio na Inglaterra para desenvolver um equipamento capaz de detectá-los. Com o início da Segunda Guerra Mundial, que provocou a suspensão das atividades e o fechamento do laboratório onde trabalhava, o pesquisador conseguiu autorização para trazê-lo ao Brasil. 

Após ter o aparelho confundido com um transmissor de rádio e retido pela alfândega por cerca de dois meses, prosseguiu com os estudos e conseguiu registrar em São Paulo, juntamente com Paulus Aulus Pompeia e Gleb Wataghin, a natureza dos chuveiros penetrantes, que atingem a Terra acompanhados de partículas de alta energia. Reproduzido no fundo de uma mina em Morro Velho, Minas Gerais, o experimento foi publicado na Physical Review, em 1940, com repercussão no Brasil e no exterior.

Nos anos 1950, além de dirigir o Instituto de Energia Atômica (IEA) da USP, Damy atuou na Comissão de Energia Atômica do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). Em 1961, assumiu a presidência da Comissão Nacional de Energia Nuclear, de onde foi afastado após o golpe militar de 1964. Reassumiu a chefia do Departamento de Física Nuclear do IEA e, em 1967, participou da organização do Instituto de Física Gleb Wataghin na Universidade Estadual de Campinas, unidade que dirigiu até 1971.

Como docente em diferentes instituições, Damy atuou na formação de renomados físicos, entre os quais César Lattes, José Goldemberg e Oscar Sala. Para ele, ensino e pesquisa caminhavam juntos: “Um bom professor é um pesquisador que gosta de contar as coisas que faz e que viu outros fazerem”, disse em uma entrevista à revista Ciência e Cultura. 
No ano seguinte à sua morte, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares da USP inaugurou, em sua homenagem, o Espaço Cultural Marcello Damy.