Sobre o Presidente
Baiano da capital, Juliano Moreira ingressou aos 14 anos na Faculdade de Medicina da Bahia, da qual tornou-se, posteriormente, professor de clínica psiquiátrica e doenças nervosas. Iniciou sua carreira como médico do Hospital Santa Isabel, na Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Em seu estado natal, ajudou a fundar a Sociedade de Medicina e Cirurgia e a Sociedade de Medicina Legal da Bahia. É considerado um dos pioneiros da psiquiatria no Brasil, tendo desempenhado papel fundamental na humanização do tratamento psiquiátrico no país, especialmente enquanto diretor do Hospital Nacional dos Alienados. Participou da criação de periódicos especializados e de associações na área, dentre as quais a Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins. Ingressou na ABC em 1916, ocupando os cargos de vice-presidente (1917-1926) e de presidente (1926-1929) da entidade. Fez parte da recepção de Albert Einstein e Marie Curie em suas visitas ao Brasil, em 1925 e 1926, respectivamente. Teve grande atuação nos meios científicos internacionais. Faleceu em maio de 1933, em Petrópolis, Rio de Janeiro.

Por uma psiquiatria humanizada
No início do século XX, o tratamento de doenças mentais incluía amarrar e isolar os pacientes, práticas verdadeiramente desumanas. Como diretor do Hospital Nacional dos Alienados, Juliano Moreira lutou para mudar essa realidade. Redigiu, em 1903, uma lei sobre a reforma da assistência a esses pacientes, abrangendo tanto a proteção dos direitos das pessoas com transtornos mentais quanto a estrutura das instituições que as acolhiam.
O médico aboliu os coletes e camisas-de-força, retirou as grades e derrubou os quartos de isolamento do hospital. Para ele, o espaço deveria lembrar um lar, com jardins, aparelhos de ginástica e jogos. Instalou, no prédio, laboratórios científicos e novas enfermarias. Também instituiu a assistência aos familiares e reativou as oficinas de trabalho – de carpintaria, sapataria e pintura, entre outras –, iniciativas fundamentais para a reintegração dos pacientes à sociedade.
Moreira conseguiu um grande terreno em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, para a instalação de uma colônia agrícola, que foi inaugurada em 1924 como Colônia de Psicopatas-Homens. A medida visava sanar os problemas de espaço e infraestrutura existentes nas antigas “colônias de alienados” da Ilha do Governador e introduzia a atividade agrícola como carro-chefe das diretrizes terapêuticas. Em 1935, em homenagem ao médico, a instituição foi renomeada Colônia Juliano Moreira.
Foi, ainda, o mentor do primeiro manicômio judiciário do Brasil e defendia a criação de instituições especialmente dedicadas ao tratamento de alcoólatras e outros dependentes químicos.
Mulato e de família pobre, Juliano Moreira lutou contra o pensamento de que a mistura de raças degenerava o povo brasileiro e o tornava mais suscetível à doença mental. Ele excluía completamente a possibilidade de os distúrbios psiquiátricos estarem associados a aspectos raciais.
“Dir-se-ia que seus grandes olhos não sabiam ver os males, que, por serem inevitáveis, nem por isso deveriam ser realçados. O que eles sempre percebiam, o que nunca a eles escapava, mesmo quando deformadas e perdidas em uma ocasional trama de elementos depreciados, eram as parcelas de bem, de verdade, eram as intenções honestas, os esforços sinceros para alguma coisa de melhor, de mais elevado e mais justo.”
Miguel Ozorio de Almeida sobre Juliano Moreira