Hertha Meyer nasceu na Alemanha. Realizou seus estudos básicos no Liceu Hohenzollern, em Berlim, e formação técnica na Lette-Haus, escola voltada à capacitação profissional de mulheres. Sem acesso a uma carreira acadêmica formal, iniciou ainda jovem sua trajetória científica como técnica em importantes instituições biomédicas alemãs, como o Instituto Robert Koch e o Instituto de Patologia da Universidade de Berlim.

Entre 1926 e 1930, integrou a equipe técnica do Kaiser Wilhelm Institute for Medical Research, onde trabalhou com Albert Fischer, pioneiro do cultivo de tecidos, e teve contato com cientistas como Otto Meyerhof e Richard Kuhn. Nesse período, dominou as técnicas de cultura de tecidos e passou a assinar publicações científicas, incluindo o artigo “Ein Jahraft erstamm von karzinomzellen in vitro”, publicado em 1928. Também teve papel relevante na formação de pesquisadores como Albert Claude, futuro Prêmio Nobel de Medicina.

Com o avanço do antissemitismo na Alemanha, Hertha Meyer deixou o instituto e, entre 1930 e 1933, atuou na Clínica Neurológica da Universidade de Berlim, desenvolvendo estudos sobre o cultivo de neurônios. Em 1933, migrou para a Itália, onde passou a trabalhar no Instituto de Anatomia da Universidade de Turim, sob a liderança de Giuseppe Levi. Nesse ambiente, influenciou diretamente jovens pesquisadores como Renato Dulbecco, Salvador Luria, Rita Levi-Montalcini e Eugenia Sacerdote de Lustig.

A perseguição aos judeus também inviabilizou sua permanência na Itália. Em 1939, Hertha Meyer estabeleceu-se no Brasil, iniciando atividades no Instituto Rockefeller, em Manguinhos, na produção da vacina contra a febre amarela. Em 1941, a convite de Carlos Chagas Filho, assumiu a chefia do Laboratório de Cultura de Tecidos da Universidade do Brasil, no então Laboratório de Biofísica da Faculdade Nacional de Medicina.

O laboratório organizado por Hertha Meyer foi pioneiro no país e tornou-se referência internacional. Ali desenvolveu estudos fundamentais sobre o cultivo in vitro de protozoários patogênicos intracelulares, obtendo resultados inéditos com o Trypanosoma cruzi, o Toxoplasma gondii e o Plasmodium gallinaceum. Esses trabalhos, publicados em 1942 nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e na Revista Brasileira de Biologia, tiveram ampla repercussão científica e transformaram o Instituto de Biofísica em centro internacional de formação, recebendo pesquisadores como Cecílio Romaña, Felipe Nery Guimarães e Wladimir Lobato Paraense.

Hertha Meyer também teve papel decisivo nos estudos que levaram à caracterização do fator de crescimento neuronal (NGF), conduzidos por Rita Levi-Montalcini. Em 1953, Rita realizou experimentos essenciais no laboratório de Hertha Meyer no Rio de Janeiro, contribuição reconhecida em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel de Medicina de 1985.

Pioneira na aplicação da microscopia eletrônica à parasitologia, Hertha Meyer realizou estágio no Instituto Rockefeller, em Nova York, com Keith Porter, descrevendo estruturas fundamentais dos protozoários. Com apoio de Carlos Chagas Filho e recursos do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), presidido por Álvaro Alberto, implantou o primeiro microscópio eletrônico no Instituto de Biofísica.

Eleita membro da Academia Brasileira de Ciências, Hertha Meyer recebeu diversos prêmios, como o Álvaro Alberto, o Estácio de Sá e o Oswaldo Cruz, além do título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Faleceu em 30 de agosto de 1990. Em sua homenagem, o laboratório que criou passou a chamar-se Laboratório de Ultraestrutura Celular Hertha Meyer, e o Instituto de Biofísica deu seu nome ao auditório principal, preservando seu legado na ciência brasileira.