Sobre a Cientista
Nascida em Brandeburgo, Alemanha, foi educada em casa pelo pai e atuou por dez anos como preceptora, lecionando em casas de família. Em 1899, já com mais de 30 anos, ingressou na Universidade de Berlim para estudar história natural, obtendo o título de doutora em 1904, com tese sobre a origem da inserção da musculatura dos insetos, ilustrada pela própria. Após estágio como assistente em zoologia no país natal, decidiu se mudar para o Brasil, em 1905, e ocupou uma vaga no Museu Emílio Goeldi, no Pará, onde se dedicou ao estudo da ornitologia. Em 1914, tornou-se diretora interina da instituição e a primeira mulher a chefiar um museu no Brasil. No mesmo ano, publicou o Catálogo das aves amazônicas, importante obra de referência que registra mais de 1.100 espécies. Transferiu-se para o Museu Nacional do Rio de Janeiro no início dos anos 1920, onde atuou como naturalista viajante. Ingressou na ABC em 1926, como membro correspondente, e integrou também a Sociedade Internacional de Mulheres Geógrafas.

Exploradora do campo
Entre os motivos que impulsionaram a vinda de Emília Snethlage – como assinava seus textos no Brasil – para a Amazônia, nos primeiros anos do século XX, conjectura-se que a vontade de desenvolver pesquisas próprias, de maior alcance científico, tenha pesado na decisão da pesquisadora. Na Europa, eram pequenas as possibilidades de alçar uma trajetória que fosse além da carreira de assistente, numa realidade pouco favorável à presença das mulheres nas ciências.
No Museu Goeldi, a cientista conseguiu se inserir nesse contexto predominantemente masculino. Contratada para trabalhar como assistente da seção de Zoologia, chegou a dirigir a unidade e, com a morte do botânico suíço Jacques Huber (1867-1914), assumiu interinamente a direção do museu. Com o início da Primeira Guerra Mundial e o alinhamento do Brasil à política norte-americana, tornou-se inviável manter a pesquisadora alemã à frente da instituição, da qual foi afastada. Ao retornar às suas funções, após o fim da guerra, Emília encontrou um ambiente institucional hostil, o que motivou sua ida, em 1922, para o Museu Nacional do Rio de Janeiro.
A transferência permitiu que a ornitóloga se dedicasse a um de seus principais interesses: o trabalho de campo. Em comparação com o Museu Goeldi, a instituição do Rio de Janeiro carecia de coleções organizadas e de literatura técnica, o que impulsionou a realização de viagens exploratórias num território mais amplo que a Amazônia. Assim, Snethlage percorreu os estados do Maranhão, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso e Goiás. Viajou também do Paraná ao Rio Grande do Sul, pela Argentina e pelo Uruguai. Suas investigações resultaram em mais de 40 artigos, com a descrição de cerca de 60 espécies e subespécies de aves e reconhecimento no Brasil e no exterior.

Travessia Xingu-Tapajós
Uma das viagens mais emblemáticas de Emília Snethlage foi a travessia entre os rios Xingu e Tapajós, em 1909, com o objetivo de analisar a distribuição das espécies de aves naquele espaço geográfico. Durante quatro meses, na companhia apenas de índios, a pesquisadora dedicou-se a coletar espécimes da fauna e flora e dados sobre as línguas faladas nas tribos, além de registrar mapas da região, à época ainda inexplorada pela ciência. Mesmo com a saúde prejudicada pela malária, Snethlage percorreu o trajeto pelo rio e pela mata, enfrentando dificuldades como intempéries e escassez de comida.