Eline Sant’Anna Prado construiu uma trajetória científica marcada pela articulação entre pesquisa básica, desenvolvimento tecnológico e formação de recursos humanos, com contribuições relevantes à bioquímica brasileira, especialmente no estudo do sistema hiertensor renal e do sistema calicreínas–cininas.
Graduada em química pela Universidade de São Paulo, iniciou sua carreira profissional na Laborterápica S.A. – Indústria Química e Farmacêutica. Entre 1943 e 1946, participou de uma realização pioneira para a ciência e a saúde pública no Brasil: o estabelecimento da tecnologia para a fabricação de insulina cristalizada e o lançamento da primeira insulina nacional para uso terapêutico. Esse feito representou um marco na autonomia tecnológica do país na área farmacêutica.
Com o apoio institucional e financeiro da Laborterápica, Prado realizou estudos de pós-graduação no exterior entre 1946 e 1948, na McGill University, em Montreal, Canadá. Obteve o título de Master of Science com uma tese na área de química de esteróides, ampliando sua formação científica em um centro de excelência internacional. Ao retornar ao Brasil, iniciou o desenvolvimento de processos para extração de colesterol do cérebro e para a síntese da vitamina D₃. No entanto, esse projeto foi interrompido em razão da associação da Laborterápica com a companhia norte-americana Bristol, que passou a concentrar seus interesses na área de antibióticos.
Durante sua permanência na indústria, manteve intensa colaboração científica com seu marido, J. Leal Prado, professor de bioquímica da Escola Paulista de Medicina (EPM) e pesquisador do Instituto Butantan, e com Maurício Rocha e Silva, pesquisador do Instituto Biológico. O desejo de dedicar-se integralmente à investigação científica levou-a a aceitar, em 1951, o cargo de assistente de bioquímica na Escola Paulista de Medicina, reiniciando a colaboração científica com J. Leal Prado, que se estenderia até o falecimento deste, em 1987.
Na EPM, Prado desenvolveu uma carreira acadêmica sólida, com pesquisas voltadas principalmente ao sistema hipertensor renal e ao sistema calicreínas–cininas. Nos últimos anos de sua trajetória científica, concentrou seus estudos na enzimologia das calicreínas tissulares, contribuindo de forma decisiva para a compreensão bioquímica desses sistemas e para a caracterização da bradicinina. Sua atuação resultou na formação de diversos pesquisadores que deram continuidade e ampliaram essa linha de investigação no Brasil.
Paralelamente à pesquisa, teve intensa atividade docente. Atuou no curso médico e participou ativamente da implantação do curso de Biomedicina da EPM, sendo responsável pela disciplina de bioquímica. Ministrou diversos cursos de pós-graduação na área de química de proteínas para alunos da própria EPM e de outras instituições, orientando várias dissertações de mestrado e teses de doutorado.
Embora não tenha podido obter o doutorado formalmente — em razão de a EPM estar, à época, credenciada apenas para doutoramento em medicina —, alcançou em 1981, por concurso de títulos, o cargo de professora titular. Em 1983, solicitou aposentadoria com o objetivo de abrir espaço para a renovação do quadro docente, mas permaneceu em atividade científica na EPM, com apoio do CNPq e da Fapesp, mantendo uma presença intelectual ativa e produtiva.