Sobre o Cientista

Nasceu em Curitiba, Paraná, e graduou-se em física na Universidade de São Paulo, onde iniciou sua carreira científica. Em 1946, foi estudar na Universidade de Bristol, na Inglaterra. Lá realizou seu principal feito científico: a comprovação experimental da existência do méson-pi. Tornou-se membro da ABC em 1949. No mesmo ano, participou ativamente da criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, do qual foi o primeiro diretor-científico. Também teve atuação importante na criação do CNPq, do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, da Escola Latino-americana de Física e do Centro Latino-americano de Física. Recebeu diversos prêmios, medalhas e comendas, dentre os quais se destacam o Prêmio Einstein (1950), o Prêmio da Academia de Ciências do Terceiro Mundo (1988) e a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico (1994). Em homenagem ao pesquisador, o repositório online de currículos de professores, cientistas e estudantes brasileiros mais usado no país recebe o nome de Plataforma Lattes.

lattes em ação, como professor e como pesquisador, e selo comemorativo dos 50 anos da descoberta do méson-pi. a imagem retrata o pesquisador e o monte chacaltaya. – acervo cbpf

Para além dos prótons e elétrons

Átomos são formados por um núcleo composto de prótons e nêutrons, somados a um grupo de elétrons que se movimentam ao redor dele. Mas, se os prótons têm carga positiva e os nêutrons, carga neutra, por que permanecem juntos em vez de se repelir? A resposta teórica foi apresentada pelo japonês Hideki Yukawa, que previu, em 1935, a existência de outra partícula no núcleo atômico, o méson. Os mésons funcionariam como uma espécie de “cola” para impedir a desintegração do núcleo. 

Já a comprovação experimental da existência dos mésons partiu do jovem físico brasileiro César Lattes, quando, aos 23 anos, pesquisava em Bristol, na Inglaterra, técnicas de emulsões nucleares. A metodologia envolve o uso de placas fotográficas capazes de registrar o caminho percorrido pelas partículas atômicas após incidir sobre elas. Essas placas eram muito utilizadas para registrar a atividade de raios cósmicos, partículas vindas do espaço e que bombardeiam a Terra a todo instante.

Em 1947, Lattes pediu ao colega Giuseppe Occhialini que, durante suas férias nos Pirineus, expusesse algumas placas de emulsão nuclear aos raios cósmicos. Já se sabia à época que, quanto maior a altitude em que a placa é exposta, melhor a análise dos raios. Quando examinou o material, o cientista notou rastros de partículas atômicas que não combinavam com a trajetória esperada para elétrons, prótons ou nêutrons: estavam detectados, pela primeira vez, os mésons. As observações foram repetidas e confirmadas por Lattes no Monte Chacaltaya, na Bolívia. 

Em 1948, com o norte-americano Eugene Gardner, Lattes produziu pela primeira vez mésons artificiais em um acelerador de partículas nos Estados Unidos. Tinha, então, 24 anos. Lattes teve, portanto, papel de grande relevância no desenvolvimento da física brasileira.

lattes em ação, como professor e como pesquisador, e selo comemorativo dos 50 anos da descoberta do méson-pi. a imagem retrata o pesquisador e o monte chacaltaya. – acervo cbpf

Cientista popular

Mesmo tendo se destacado em uma área científica de alta complexidade, a figura de César Lattes, pela importância e repercussão do seu trabalho, acabou sendo incorporada à cultura brasileira, por meio de diferentes manifestações artísticas. O físico é citado no samba-enredo Ciência e Arte, de Cartola e Carlos Cachaça, que levou a Mangueira ao segundo lugar no desfile do carnaval carioca de 1947. A letra da música exalta os feitos de brasileiros notáveis nos dois campos. Enquanto o pintor e poeta Pedro Américo representa a arte, César Lattes representa os cientistas do país. Ainda no contexto carnavalesco, César Lattes faz companhia a outros bonecos gigantes nos desfiles do “Com Ciência na Cabeça e Frevo no Pé”, bloco de carnaval que se dedica à divulgação científica e anima as festas pernambucanas desde 2005. Lattes também é tema de um cordel do cearense Gonçalo Ferreira da Silva, que afirma no folheto: “O esforço de César Lattes/ foi importante demais/ sua força intuitiva/ foi luminosa e capaz/ de alargar as ideias/ para avanços reais”.

Sobre nomes

Lates é o nome de um rio localizado entre a Espanha e a França. Depois que a rainha Isabel deu seis meses para os judeus saírem da Espanha e de Portugal, muitos deles atravessaram o rio, passando a utilizar Lattes, com dois “t”s, como sobrenome. 
“Méson” significa “intermediário” em grego, nome apropriado para a partícula cuja massa fica entre a dos prótons e a dos elétrons. (Fonte: Coleção Caros Amigos “Grandes Cientistas Brasileiros”, fascículo 2)