Sobre o Cientista

Nascido na fazenda Bom Retiro, município de Oliveira, em Minas Gerais, iniciou sua formação em colégios religiosos. Com apoio do tio materno, médico em Oliveira, foi para a capital federal e formou-se em 1902 pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Desenvolveu pesquisa sobre os aspectos hematológicos da malária, orientado pelo diretor do Instituto Soroterápico Federal, o então jovem microbiologista Oswaldo Cruz. Em 1907, identificou o protozoário Trypanosoma cruzi, causador da tripanossomíase americana, hoje conhecida como doença de Chagas. Assumiu em 1917, logo após a morte de Oswaldo Cruz, a direção do Instituto de Manguinhos (antigo Instituto Soroterápico Federal e atual Fundação Oswaldo Cruz), cargo que ocupou até o fim da vida. No mesmo ano, ingressou na Academia Brasileira de Ciências. Por indicação do presidente Epitácio Pessoa, comandou a Diretoria Geral de Saúde Pública entre 1919 e 1926. Foi membro honorário de dezenas de associações médico-científicas, recebeu inúmeros títulos e condecorações, além de duas indicações ao Nobel de Medicina.

nas frestas das paredes de casas de pau-a-pique, escondem-se os barbeiros transmissores da doença de
chagas. abaixo, inseto da espécie triatoma infestans, uma das envolvidas no ciclo da enfermidade. reprodução e bärbel – stock (barbeiro)

Salto triplo na história da ciência

A entomologia médica, voltada ao estudo de insetos transmissores de doenças, era um dos principais campos de investigação do Instituto de Manguinhos no início do século XX.
Várias regiões do Brasil enfrentavam epidemias, entre elas a de malária, que atingia fortemente trabalhadores das obras de modernização do país. Em 1907, Carlos Chagas iniciou sua participação no combate à doença nas proximidades de Lassance, norte de Minas Gerais, onde era construído o prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Além de coordenar ações relacionadas à malária, o cientista desenvolvia pesquisas com espécimes da fauna local. Àquela época, o estudo dos tripanossomas era um dos focos da medicina tropical. Atento a essa preocupação, Chagas identificou uma nova espécie do protozoário no sangue de um sagui comumente encontrado em Lassance. Meses depois, em parceria com o médico Belisário Penna, dedicou-se à coleta e ao estudo de insetos hematófagos existentes na região, conhecidos como barbeiros. No laboratório montado em um vagão de trem, o cientista observou a presença de um tripanossoma no intestino dos insetos. Enviou amostras para testes no Instituto de Manguinhos e, com base nos resultados e em pesquisas posteriores, concluiu ter identificado uma nova espécie, a que deu o nome Trypanosoma cruzi em homenagem a Oswaldo Cruz.

Chagas estudou o ciclo evolutivo do protozoário, identificou a infecção em animais domésticos e observou, em abril de 1909, o T. cruzi no sangue de uma criança – o primeiro caso comprovado da tripanossomíase humana. Estudou suas manifestações clínicas, complicações e epidemiologia. Foi, assim, o primeiro e o único cientista na história da medicina a descrever completamente uma moléstia infecciosa, conhecida hoje como mal de Chagas ou doença de Chagas. Pelo feito, ingressou em 1910 na Academia Nacional de Medicina, que pela primeira vez admitiu um membro titular sem que houvesse vaga disponível.

Herança científica

Assim como a convivência com um tio materno estimulou o interesse de Carlos Chagas pela medicina, a experiência de observar e acompanhar o trabalho do pai teve influência nas carreiras de Evandro Chagas (1905-1940) e Carlos Chagas Filho (1910-2000), filhos de Chagas com Iris Lobo. O primeiro destacou-se por contribuições ao conhecimento dos aspectos clínicos da doença de Chagas e pela identificação dos primeiros casos humanos de leishmaniose visceral americana. Já Chagas Filho desvendou o mecanismo do choque do peixe-elétrico, característico da fauna brasileira, fundou o Instituto de Biofísica da UFRJ e teve participação fundamental na institucionalização da pesquisa universitária no país.