Entre 2016 e 2024, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) enfrentou desafios políticos,
econômicos e sociais complexos, mantendo-se como uma referência na defesa da ciência, da
educação de qualidade e da inovação tecnológica no Brasil. Neste período, a ABC consolidou
sua presença internacional, ofereceu conteúdo para a elaboração de políticas públicas
baseadas em evidências científicas e reforçou programas voltados à formação de novas
gerações de cientistas. Cada presidente contribuiu com sua visão e liderança, garantindo a
continuidade de valores essenciais e a adaptação a contextos dinâmicos.

Capa publicação FNDCT 2021, Capa Fundos Setoriais 2021, Capa Fundo Infrastrutura 2021

Crises e cortes

A partir de 2016, o Brasil entrou em um processo de austeridade fiscal que aumentou as pressões sobre o orçamento científico. Desde então, a ABC monitorou cortes significativos no orçamento de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), destacando a redução de 42,27% em 2019. Em resposta, publicou relatórios e notas oficiais defendendo o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), os fundos estaduais e o fortalecimento de universidades e centros de pesquisa.


Entre 2016 e 2017, o Projeto Ciência para o Brasil analisou o cenário de ciência e inovação no país e propôs uma agenda positiva, com sugestões de políticas públicas que pudessem conduzir o país a se beneficiar da fronteira do conhecimento, em prol do bem estar da sua população, visando os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. O documento já alertava, por exemplo, sobre o risco de novas epidemias ou sobre a necessidade de adaptação das cidades às mudanças climáticas. Por conta das eleições de 2018, a ABC lançou uma nova edição do documento com diretrizes aos candidatos à presidência, intitulado “Ciência, Tecnologia, Economia e Qualidade de Vida para o Brasil”

Grupos de trabalho organizados pela ABC elaboraram pareceres sobre problemas relevantes ao desenvolvimento nacional, trazendo embasamento científico para questões presentes no debate público. Foi assim que, respondendo aos desastres em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), a ABC produziu os relatórios “Recomendações sobre segurança de barragens de rejeito”, junto a Academia Nacional de Engenharia (ANE); e“A new vision of sustainable management in mining and post-mining landscapes”, junto a Academia alemã. Essa característica de resposta à múltiplas crises viria a se destacar nos anos seguintes da Academia.

A pandemia da covid-19

No fim de 2019, começam a surgir notícias de um novo vírus letal que causava epidemias na China e rapidamente se espalhava para outros países. Tratava-se do Sars-cov-2, patógeno causador de uma doença respiratória aguda com taxas de mortalidades não vistas desde a pandemia da gripe espanhola, cem anos antes. A covid-19 chegou de vez ao Brasil em março de 2020, após já ter colapsado os sistemas de saúde de países europeus, e viria por levar a vida de mais de 700 mil brasileiros. 

De 2020 a 2022, a ABC adaptou sua dinâmica do cotidiano, mantendo os funcionários em casa e passando a promover eventos e reuniões em plataformas digitais, garantindo a continuidade de programas, grupos de trabalho e encontros científicos.
Logo que a crise se instaurou a ABC passou a organizar webinários semanais para tratar os diferentes aspectos do problema. Esse modelo de evento se tornaria muito comum em função do isolamento social. A série “Conhecer para Entender: o mundo a partir do coronavírus” abordou, ao longo de 56 episódios, não só os aspectos da biologia e patologia da covid- 19, mas também seus impactos na sociedade, na economia, na educação, na política, na comunicação e em todas as demais áreas em que os efeitos da pandemia eram sentidos.

Maria Van Kerkhove no Museu do Amanhã


A covid-19 também foi o tema da Reunião Magna de 2020, que, assim como a de 2021, ocorreu em formato virtual. Na ocasião, a ABC reuniu cientistas nacionais e internacionais para tratar da pandemia. O tema continuou reverberando nos anos seguintes, com grupos de trabalho lançando os documentos “Vacinas para o Brasil” e “Diretrizes para o desenvolvimento de novas vacinas contra Covid-19”, este último em parceria com a Academia Nacional de Medicina (ANM) e a Rede Vírus, ambos em 2021. Já na Reunião Magna de 2022, a primeira presencial após a pandemia, a ABC recebeu no Museu do Amanhã a cientista Maria von Kerkhove, chefe do Departamento de Doenças Emergentes e Zoonoses da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Lançamento do livro na Reunião Anual da SBPC em 2025


O tema do negacionismo científico emergiu com toda a força após 2020, impulsionado com apoio governamental não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos, com consequências trágicas. Essa experiência fez com que em 2024, um grupo de trabalho multidisciplinar publicasse o livro “Desafios e estratégias na luta contra a desinformação científica” em português e em inglês

Um governo contra a ciência

As eleições de 2018 no Brasil representaram uma vitória inesperada para a nova direita que emergia no planeta. Começando em 2019, o novo governo aprofundou os cortes orçamentários com os quais a ciência já convivia, mas trouxe como novidades um discurso abertamente contra a democracia e, com a chegada da covid-19, contra a prática científica.
A ABC manteve postura científica e independente, reforçando informações baseadas em evidências. Ao longo desse período, a Academia foi instada a se manifestar cada vez que uma orientação sem respaldo na ciência vinha de Brasília, como quando o governo se colocou contrariamente às medidas de isolamento social e às vacinas. 

A ABC integrou o Pacto pela Vida e pelo Brasil, que reuniu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns (Comissão Arns), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) para alertar e representar a sociedade civil brasileira no enfrentamento da grave crise sanitária, econômica, social e política por que passava o país.

Junto à essas e a outras entidades parceiras a ABC lançou diversos posicionamentos oficiais, artigos na imprensa e participou de mobilizações alertando para a necessidade perene de defesa da democracia e do Estado Democrático de Direito, num contexto em que as ameaças vindas do Planalto se intensificavam conforme as eleições de 2022 se aproximavam. O pleito também foi motivo de mais um documento com diretrizes aos presidenciáveis, dessa vez intitulado “A importância da ciência como política de Estado para o desenvolvimento do Brasil”.

Ciência Básica na Fronteira do Conhecimento: abertura com os Acadêmicos Anderson Gomes, coordenador da 5ª CNCTI; Renato Janine Ribeiro, então presidente da SBPC; e Jailson Bittencourt, vice-presidente da ABC

Um novo projeto de ciência para o Brasil

A vitória da oposição nas eleições presidenciais de 2022 trouxe à comunidade científica uma expectativa de aumento nos investimentos e cessão nos ataques discursivos contra a categoria. Embora esta última tenha se confirmado, a questão dos investimentos segue gerando controvérsias dentro do setor acadêmico. Por um lado houve o impulso deliberativo, com o reestabelecimento de conselhos e a convocação de uma nova Conferência Nacional de CT&I (5ª CNCTI), que mobilizou centenas de debates por todo o país ao longo de mais de um ano, culminando em um grande evento em Brasília com a promessa de uma nova estratégia nacional para os próximos dez anos. 

A ABC participou ativamente das discussões da 5ª CNCTI, sediando a reunião temática “Ciência Básica na Fronteira do Conhecimento” e a reunião livre “Juventudes e Ciência”, além de enviar representantes para outras reuniões durante o período pré-conferência ou para a conferência em si, realizada entre 30 de julho e 1º de agosto de 2024. A Academia seguiu vigilante quanto ao desenvolvimento da estratégia, organizando ao longo de 2025, junto à SBPC, os eventos “Vozes da Ciência”, construindo em cima do que foi compilado na 5ª CNCTI.

Por outro lado, as preocupações orçamentárias continuaram, com sucessivas leis orçamentárias sendo aprovadas com verbas estagnadas ou mesmo reduzidas para importantes instituições da ciência brasileira, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e as universidades federais. Em parceria com a SBPC, a Academia divulgou uma série de posicionamentos oficiais alertando para essas constrições orçamentárias e defendendo ativamente a retirada da ciência dos limites fiscais, entendendo – e tentando fazer entender – que pesquisa não é gasto, mas investimento de longo prazo.

Educação e difusão de ciência

Entre 2016 e 2025, a ABC atualizou os relatórios sobre educação no Ensino Médio (2018) e Educação Superior (2024). Os documentos fornecem subsídios para a criação de novos cursos de ciência e tecnologia em ambos os níveis, de acordo com padrões adequados às demandas atuais da sociedade. A Academia também lançou o documento “A necessária aliança entre Ciência e Educação” (2024), onde defende uma maior interação do setor acadêmico com a educação básica brasileira.

Em 2022, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), a ABC retomou o Programa Aristides Pacheco Leão de Estímulo às Vocações Científicas (PAPL), que havia sido interrompido em 2019 por falta de apoio. O programa aproxima jovens pesquisadores de grupos de excelência e é referência na inspiração de jovens para que escolham a carreira científica. Criado em 1994, o PAPL oferece estágios a estudantes universitários interessados em uma experiência fora de seu estado de origem. Graças à parceria com a Fapesp, o programa vem crescendo, passando de 50 bolsas em 2022 para 120 em 2024.

Entre 2016 e 2022, a ABC produziu filmes de animação sobre cientistas brasileiros, numa série intitulada “Ciência gera Desenvolvimento”. Com apoio da Rede D’ Or inicialmente e depois com financiamento do CNPq, a série apresenta personagens e sua obra, mostrando, com exemplos reais – como Álvaro Alberto, Bertha Becker, Johanna Döbereiner, Juliano Moreira, Marcos Luiz dos Mares Guia, Milton Santos e Sérgio Ferreira, entre outros – como a ciência pode ser traduzida em benefícios palpáveis para um país. 

Veridiana Victoria Rosseti foi a segunda agrônoma formada no Brasil, em 1937, e e foi uma das principais responsáveis pelo Brasil ser hoje o maior produtor e exportador de suco de laranja do mundo?


Em parceria com o Nobel Prize Outreach, a ABC organizou duas edições do Diálogos Nobel no Brasil. A primeira em 2021, ainda virtualmente, e a segunda em 2024, presencialmente na UERJ, USP e FIESP. Esses encontros, os primeiros do tipo na América Latina e Caribe, trouxeram laureados com o Prêmio Nobel ao Brasil para inspirar jovens e promover um diálogo entre a comunidade científica e a sociedade. De modo geral, foi debatido como a ciência pode enfrentar desafios globais e gerar benefícios sociais.

Os nobelistas David MacMillan, Serge Haroche e May-Britt Moser – esta cumprimentando efusivamente a presidente da ABC, Helena Nader, na Universidade de São Paulo


Outra iniciativa de divulgação científica de impacto foi o lançamento do livro “A Evolução é Fato” em 2024, um esforço de dezenas de cientistas desde a biologia até a geologia que explicam de forma inequívoca o porquê de a evolução biológica ser considerada um fato científico comprovado. O livro foi um sucesso de demanda e pode ser baixado de graça no site da ABC.

Autores no lançamento do livro Evolução é Fato em evento na Finep
Abertura da Reunião Magna da ABC 2024 com os coordenadores Virgilio Almeida e Elisa Reis ladeando a presidente Helena Nader

Inteligência Artificial

Com o surgimento de plataformas de inteligência artificial capazes de gerar textos e imagens de forma cada vez mais eficientes a partir do final de 2022, iniciou-se uma corrida global de investimento nessa nova fronteira tecnológica. Em resposta a essa nova demanda, a ABC organizou um grupo de trabalho que produziu o documento “Recomendações para o avanço da Inteligência Artificial no Brasil” e também dedicou a Reunião Magna de 2024 ao tema. As contribuições da ABC serviram para embasar o Plano Brasileiro em IA, apresentado durante a 5ª CNCTI e que prevê investimentos acima de R$ 20 bilhões na tecnologia

A advogada Auricelia Arapiuns em sessão na Reunião Magna da ABC 2025, no Museu do Amanhã

Diversidade e Inclusão

Entre 2016 e 2024, a ABC apoiou ações afirmativas e políticas inclusivas. Exemplos dessa atuação foram a eleição do líder yanomami Davi Kopenawa como membro colaborador da ABC, em 2021, e a programação da Reunião Magna de 2024 “Amazônia Já”, com líderes indígenas entre os palestrantes.

Em 2022, a biomédica Helena Nader foi eleita para presidir a ABC, sendo a primeira mulher a exercer o cargo, promovendo visibilidade feminina na liderança científica nacional e internacional. A ABC também é parceira e compõe o júri do Programa L’Oréal-Unesco-ABC, que incentiva a participação de mulheres jovens cientistas em pesquisa de ponta, premiando anualmente o talento e a inovação desde 2006.

Helena Nader sendo empossada como presidente da ABC, ao lado do presidente em fim de mandato, Luiz Davidovich
Cientistas representantes de 30 países em encontro em Manaus organizado pela ABC e Ianas em 2023: “Ciência Para e Pela Amazônia”

Meio ambiente, Agricultura e as Crises Recentes

Os dez anos que se passaram desde 2016 viram a intensificação das mudanças climáticas, que deixaram de ser um desafio para o futuro para se tornarem uma emergência para o presente. O Brasil é um inevitável protagonista nesse cenário. Por um lado, o país é responsável pela maior floresta tropical do planeta, bioma chave para preservação em qualquer cenário de combate ao aumento da temperatura. Por outro, é uma potência agropecuária, responsável por alimentar uma população cada vez maior, e precisa encontrar formas de fazê-lo sem agredir ainda mais os seus ecossistemas.

Com esses desafios em mente, a ABC publicou os seguintes livros e documentos: “Biomas e Agricultura: Oportunidades e Desafios” (2018), “Biomas e Agro” (2022), “Contaminação por Mercúrio: Por que precisamos de um plano de ação?” (2022), “Segurança Alimentar e Nutricional: O papel da Ciência Brasileira no combate à fome” (2024), “Petróleo na Margem Equatorial Brasileira” (2025) e “Considerações da Ciência Brasileira sobre a Amazônia” (2025), este último compilado em ocasião da COP 30, realizada em Belém do Pará em 2025.

A ABC também organizou diversos eventos sobre clima e meio ambiente, dos quais destacam-se a Reunião Magna de 2025, cujo tema foi “Amazônia Já! Sem tempo a perder”, e os eventos “Ciência para e pela Amazônia”, de 2023, realizado em parceria com a Rede InterAmericana de Academias de Ciências (Ianas), e “Um Chamado Científico para a COP30: Academias de Ciências Unidas pela Ação Climática”, de 2025, ambos realizados no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus.

Delegação da ABC em visita ao Centro de Pesquisas em Ciências Eco Ambientais (RCEES), em Pequim, 2025

Atuação Internacional

O período entre 2016 e 2025 foi marcado por uma retração na colaboração internacional, com o enfraquecimento de instituições multilaterais e o crescimento da desconfiança entre as nações. Na contramão desse processo, a ABC expandiu sua rede de parceiros internacionais, mantendo cooperação com as academias nacionais da China, Alemanha, Cuba, França, Índia, Israel, Portugal, Senegal e a Academia Europeia. Particularmente com a China, as Academias estreitaram os laços de cooperação com a visita de uma delegação de cientistas brasileiros às instalações de pesquisa daquele país em 2025. 

Delegações presentes no Fórum de Academias dos BRICS 2025



A ABC integrou e ocupou cargos de direção em organismos multilaterais como a Academia Mundial de Ciências (TWAS), a Parceria InterAcademias (IAP), o Conselho Internacional de Ciências (ISC), a Global Young Academy (GYA), a Rede Interamericana de Academias de Ciências (Ianas) e a Aliança de Organizações Científicas Internacionais (ANSO). A Academia também esteve à frente da organização de encontros multilaterais no Brasil, como o Science 20, braço científico do G20, em 2024; o Fórum de Academias de Ciências do BRICS de 2025; e a 17ª Conferência Geral da Academia Mundial de Ciências (TWAS), também em 2025.

Primeira sessão da Conferência-Geral da TWAS 2025